Entre a 11ª e a 12ª hora

Trabalhadores da 11ª hora, Jacob de Wet
Mas, tendo-o recebido, murmuravam contra o dono da casa, dizendo: Estes últimos trabalharam apenas uma hora; contudo, os igualaste a nós, que suportamos a fadiga e o calor do dia. Mateus 20.11-12

Se há um dado quanto à nossa participação no Reino de Deus que pode ficar patente, o dado é esse: não somos, como arrogantemente pensamos, os trabalhadores da primeira hora, e sim os da décima primeira hora. Quanto mais nos conscientizarmos dessa realidade, tanto mais seremos gratos ao amor de Deus e uteis ao seu Reino.

Não seria uma tarefa muito árdua listar alguns poucos daqueles muitos trabalhadores que Deus chamou para a sua obra muito antes que nossos ancestrais tivessem qualquer perspectiva de vir a esse mundo. Também não seria nada complicado rever algumas atitudes equivocadas daqueles trabalhadores que, como nós, reivindicam direitos e privilégios sobre outros que, numa escala da história da salvação medida em horas, chamados pelo mesmo Deus chegaram poucos segundos depois de nós à grande seara.

Uma delas, provavelmente a mais evidente, acontece quando o mundo moderno consegue nos convencer de que tanto a privacidade quanto a exclusividade podem nos trazer a segurança que tanto buscamos, e esta talvez seja a principal causa da nossa reivindicação desses ditos direitos. Talvez seja essa também a razão de não serem poucas as igrejas que chamam para si o direito de ser a menina dos olhos de Deus, ainda que a Bíblia não faça referência alguma sobre esse impensável privilégio.

A concretização desse simples e aparentemente inocente equívoco faria com que Deus olhasse o mundo através de nós e não mais através do seu Santo Espírito, como nos foi prometido. Isso implicaria com que Deus passasse a olhar o mundo com olhar crítico e com a parcialidade com que olhamos as coisas que não nos agradam nas outras pessoas. Não seria somente a anulação da graça que nos chamou à salvação, mas a completa derrocada de um plano que manteve o Reino de Deus crescendo entre nós e em nós.

Se Deus olhasse para uns com olhos diferentes do que olha outros, talvez nem chegasse a nos enxergar perdidos naquela praça que estávamos impotentes e sem qualquer possibilidade de sobrevivência. Ou seja, estaríamos colocando um fim em algo que não começou conosco e quem vem dando certo há muitas gerações. Seria um problema enorme para Deus explicar a todos aqueles que acreditaram que faziam parte de algo maior que eles e mais importante que suas próprias vidas, que a fé deles foi vã, que eles ainda estavam perdidos nos seus pecados e que não aconteceria a tão proclamada salvação pra este nosso mundo.

O que de fato nos faz ser os privilegiados dessa história é a bem aventurança de cremos sem termos sidos testemunhas, de ouvirmos o que reis tanto quiseram ouvir e não ouviram, de vermos o que profetas quiseram ver e não viram. Se Sodoma e Gomorra tivessem tido o privilégio que temos há muito tinham se convertido. Se a Tiro e a Sidom antigas conhecessem o que conhecemos não teriam sucumbido à iniquidade.

Essa parábola contrapõe duas justiças completamente diferentes, ainda que ostentando o mesmo nome: a justiça do merecimento e a justiça gratuita. Tentamos viver desesperadamente equilibrados entre as duas, mas seria importante saber que para termos uma temos que abrir integralmente mão da outra. Definitivamente não somos os trabalhadores da primeira, da terceira, da sexta e nem da nona hora. Resta saber apenas se vamos aceitar com gratidão aquilo e com pouco esforço aquilo que muitos alcançaram com o preço de suas próprias vidas.

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