Melhor do que a lâmpada de Aladim

Os dias da nossa vida sobem a setenta anos ou, em havendo vigor, a oitenta; neste caso, o melhor deles é canseira e enfado, porque tudo passa rapidamente, e nós voamos. 
Morte de Moisés, www.dibujosbiblicos.net
Leia Salmos 9090.1 [Oração de Moisés, homem de Deus] Senhor, tu tens sido o nosso refúgio, de geração em geração.
90.2 Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus.
90.3 Tu reduzes o homem ao pó e dizes: Tornai, filhos dos homens.
90.4 Pois mil anos, aos teus olhos, são como o dia de ontem que se foi e como a vigília da noite.
90.5 Tu os arrastas na torrente, são como um sono, como a relva que floresce de madrugada;
90.6 de madrugada, viceja e floresce; à tarde, murcha e seca.
90.7 Pois somos consumidos pela tua ira e pelo teu furor, conturbados.
90.8 Diante de ti puseste as nossas iniqüidades e, sob a luz do teu rosto, os nossos pecados ocultos.
90.9 Pois todos os nossos dias se passam na tua ira; acabam-se os nossos anos como um breve pensamento.
90.10 Os dias da nossa vida sobem a setenta anos ou, em havendo vigor, a oitenta; neste caso, o melhor deles é canseira e enfado, porque tudo passa rapidamente, e nós voamos.
90.11 Quem conhece o poder da tua ira? E a tua cólera, segundo o temor que te é devido?
90.12 Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio.
90.13 Volta-te, SENHOR! Até quando? Tem compaixão dos teus servos.
90.14 Sacia-nos de manhã com a tua benignidade, para que cantemos de júbilo e nos alegremos todos os nossos dias.
90.15 Alegra-nos por tantos dias quantos nos tens afligido, por tantos anos quantos suportamos a adversidade.
90.16 Aos teus servos apareçam as tuas obras, e a seus filhos, a tua glória.
90.17 Seja sobre nós a graça do Senhor, nosso Deus; confirma sobre nós as obras das nossas mãos, sim, confirma a obra das nossas mãos.
Texto do rev. Jonas Rezende.
No terceiro capítulo do Livro dos Reis I, há um fantástico relato bíblico. Deus aparece em sonho a Salomão e lhe propõe que ele peça o que mais deseja. Essa história desperta as fantasias de quase todos nós. Bem que gostaríamos de encontrar incríveis lâmpadas mágicas, como a de Aladim, e gênios poderosos e bons que se colocassem a nosso serviço, para corresponder até mesmo aos mais inconfessáveis desejos, não é mesmo?

Pois bem, o que você acha que Salomão pediu? Errou, se supôs que solicitou palácios, tesouros, prestígio e poder. Porque ele tão somente quis de Deus conhecimento e sabedoria.

O salmo 90 é o registro de uma oração de Moisés, única página no Saltério desse homem que plasmou e conduziu o povo de Israel em sua fuga da escravidão egípcia e na busca de uma terra de liberdade, onde se organizasse como nação.

Leia com atenção todo o salmo. É o relato da vida humana: sua fragilidade e, ao mesmo tempo, o imenso potencial que traz em si. Depois de dizer que tudo passa rapidamente e nós voamos, o salmista reconhece também que o trabalho bem-intencionado produz marcas luminosas que poderão permanecer no caminho que percorrermos. Por isso, no final da prece, suplica de Deus um favor muito especial, capaz de mudar o tom sombrio de boa parte dessa página poética: confirma, implora, a obra de nossas mãos, sim, confirma as obras de nossas mãos. Mas, veja bem. No momento mais alto de sua oração, Moisés expressa o mesmo desejo do rei Salomão: quer valorizar as oportunidades da vida, com um coração sábio.

Ninguém precisa, na verdade, que lhe ensinem a respeito dos problemas da existência, mas é sempre bom saber que não estamos sozinhos em nossa dor. Talvez por isso as palavras do russo Maiakovski encontrem profundo eco em nosso espírito. Diz o poeta: morrer não é difícil, o difícil é a vida e o seu ofício.

Há um traço de amargura nessa afirmação, como também sentimos no salmo de Moisés. Mas assim como o resumo do salmo não é a melancolia. Maiakovski também nos surpreende com uma saída que ele mesmo não conseguiu usar em sua existência: minha anatomia enlouqueceu; sou todo coração.

É isso, a vida é difícil frágil e provisória, mas é também bela, se dermos aos nossos gestos a verdadeira dimensão do amor e da ternura; se estamos prontos para sorver com emoção as oportunidades. Porque a sabedoria do amor produz as obras que o Senhor confirma com a sua graça, como o salmo nos promete.

Hermann Broch, em seu livro A morte de Virgílio, fala do grande poeta interessado, até o fim da existência, no que acontece debaixo da sua janela. E o Virgílio de Broch nos ensina a sorver com garra e gana todas as expressões de beleza que a vida nos oferece, mesmo quando a candeia vai apagar a qualquer momento. Porque o poeta ultrapassa o ditado popular. Mesmo morrendo, ele ainda aprende, já que a alma está aberta para o amor.

O neurobiólogo chileno Humberto Maturana instrui em nome da Ciência: o motor do conhecimento é a paixão.

Você já usou esse motor em sua vida?

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