E por falar em ética

Elias e os corvos, Tissot
Um texto do bispo Josué Adam Lazier.

A ética do corvo.
A ética é tema de extrema importância no mundo em que vivemos e também de extrema complexidade. Não que ela seja complexa, mas sim a pessoa em sua totalidade. O tema da ética, ou a falta dela, está presente nos jornais e noticiários todos os dias. Há muita literatura abordando o tema, a importância e as definições que se formam em torno dela. Falar da ética da vida, do meio ambiente, da política, da família etc., está na ordem do dia. Portanto, escrever sobre a ética é deveras desafiador.
 
Por onde começar? Pela ética cristã que deve ser vivenciada pelas autoridades religiosas? Achei que não seria oportuno, considerando que algumas das maiores autoridades das diferentes religiões acabam envolvidas em episódios que não passam pelos caminhos da ética cristã.

Escrever sobre a ética dos governantes, dos políticos e dos nobres que têm a missão sagrada de governar para o povo? Seria um grande desafio abordar tal temática, considerando as guerras promovidas por governos sem escrúpulos, ou levando-se em conta as corrupções e o amor ao poder que acaba por caracterizar os que assumem postos de governo, seja no campo executivo, legislativo e judiciário.

Poderia então falar acerca da ética dos relacionamentos mais próximos, entre irmãos e familiares, entre amigos, entre companheiros de grupo, entre membros de agremiações ou religiões, mas não seria motivador, pois nestes meios a ética virou estética, sintética e “individualizante”, onde se preconiza que se for para o bem pessoal então a falta de ética não é bem falta de ética. Para algumas pessoas não faz mal dar uma escapadinha para o campo da imoralidade, da maldade e da impiedade, da mentira, da dissimulação, especialmente se for para levar vantagem.

Preferi então abordar a ética de um modo mais simples e até insignificante, considerando que o exemplo que pretendo usar vai nesta linha, ou seja, a ética do corvo. Isto mesmo, a ética do corvo que, mesmo sendo um animal considerado impuro, é ético. Os dicionários definem corvo como “animais dentirrostros carnívoros, com bico e plumagem pretos”. Dentirrostros quer dizer bico denteado. Os corvos foram usados pelo Cristo para ilustrar uma de suas lições sobre a solicitude da vida, dizendo que, mesmo sendo esta ave considerada impura, Deus cuidava dela (Lc 12.24). O salmista louva este cuidado de Deus para com este tipo de ave de rapina (Sl 147.9). Teria ética o corvo? O corvo tem a sua ética segundo o mundo dos corvos. Ele não ataca um animal, seja racional ou irracional, que ainda tenha qualquer sopro de vida. Ele espera que a vida se vá para então comer os restos mortais. O corvo não se aproveita da fragilidade daquele que está agonizante.

Num primeiro momento parece coisa horrível o corvo aguardar suas presas morrerem para então devorá-las sem que tenham direito a um sepultamento digno. Para o corvo, segundo o seu instinto, quando a morte chega é o fim e o seu destino é dar um fim aos restos mortais. Ao fazer isto está contribuindo para que bactérias não se espalhem e o meio ambiente seja limpo.

Talvez esta visão do corvo devorando corpos acabe por ferir a sensibilidade das pessoas, mas perguntaria se as violências que são cometidas diariamente, as injustiças que são praticadas cotidianamente, os compromissos que não são cumpridos, os votos não praticados e as inverdades que são anunciadas como verdades também não deveriam causar indignação? Se pensar na ética do corvo avilta os mais nobres sentimentos, quanto mais pensar nas crianças violentadas, mulheres agredidas por seus parceiros, mentiras que são transformadas em verdades, práticas discriminatórias e atitudes contra o bem estar social? Estas ações antiéticas deveriam indignar os que se incomodam com a atitude “impura” do dentirrostro.

Ao falar do assunto expresso minha indignação com atitudes de arrogância, de orgulho, de avareza, de maldade e outras mais, que ganham o aplauso de muita gente. Estou indignado com os “éticos” que são na verdade “estéticos” (bonito por fora e estragado por dentro). Prefiro pensar na ética simples do corvo, que não ataca o seu oponente enquanto este tem vida, enquanto está fragilizado, mas que pode ainda superar a morte iminente, para vislumbrar a ética do Reino de Deus que é apresentada como virtude de caráter. Esta sim me motiva e me faz procurar o caminho da cruz de Cristo, para nela depositar minha carnalidade e ganhar uma nova vida, sobretudo numa perspectiva do respeito. Se Deus cuida dos corvos, como afirma o evangelista Lucas, Deus cuidará dos que preconizam em suas relações a ética que é a do Reino de Deus, ética de virtude, de caráter e de compromisso com a vida.

Esta ética é simples, justa, fraterna e misericordiosa para com os enfraquecidos e fragilizados pelos acontecimentos que cercam a nossa vivência. Ela indica o caminho do doar-se a si mesmo, da tolerância e da justiça; ela aponta o caminho do amor, do perdão e da reconciliação. Sobretudo, ela sinaliza o caminho da simplicidade e do respeito à dignidade humana. Esta ética é virtude, é pureza, é benevolência, é atitude de muita humanidade e expressão da divindade presente entre nós.

Esta ética é virtude, é pureza, é benevolência, é atitude de muita humanidade e expressão da divindade presente entre nós. Se a ética do corvo nos levar a pensar em nossa própria ética, ou na ausência dela, então valeu o desconforto...

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