A intolerância nossa de todo dia

Copa da Paz, foto de Douglas Shineidr do JB
Com o tema Por um Mundo sem Armas, Drogas, Violência e Racismo foi organizada uma reunião de líderes religiosos esta semana no Maracanã, da qual participei muito a contra gosto representando a minha pequena ICI como membro do CONIC. Porém, na realidade, pouco se tratou dos assuntos propostos, pois as mensagens trazidas pelos representantes dos diversos credos que ali estiveram não foram muito além de promoverem suas crenças, e se mostrarem contrárias à decisão do juiz federal que declara que a Umbanda e o Candomblé, aos quais chamou pejorativamente de macumba, não são religiões.

O juiz Eugênio Rosa de Araujo entende que, para um credo vir a ser considerada uma religião, se faz necessário possuir um texto base, como a Bíblia, Torah, ou Corão, ter uma hierárquica sacerdotal, além de adorar um deus único. Nada de novo debaixo do sol, pois foi justamente por esses motivos que, há dois mil anos, o Cristianismo foi proibido no Império Romano e a sua prática punida com pena de morte. São justamente por esses mesmos motivos que os crimes em nome da religião se perpetuam pela História. São por esses motivos que dia após dia os jornais chegam às bancas trazendo notícias de perseguições e intolerância religiosa em todo o mundo.

Quem são os culpados? Nós, que perdemos o nosso tempo e as oportunidades, como essa que se apresentou, defendendo os precários limites da nossa fé como se dela fôssemos os últimos bastiões da sua preservação. Os culpados somos, nós que insistimos cantar a nossa fé nos versos da Minha Namorada, canção de Vinícius de Moraes, que diz: Se quiser ser somente minha / Exatamente essa coisinha / Essa coisa toda minha / Que ninguém mais pode “ter”.

Infeliz e sem futuro é uma fé que não se defende por si e que necessita de guardiões e sentinelas, pois o que se pode dizer da fé é essencialmente aquilo que não depende de fatores externos ou de consistência racional para subsistir. Fé é o que os sobreviventes das perseguições sangrentas demonstram, mesmo quando essas lhes causam duras perdas.

Mas existe ouro fator que deveria prevalecer em encontros inter-religiosos como este. Espero o dia que eu possa vestir com honra um quimono japonês de um monge budista, e com ele celebrarmos um, culto; espero o dia em que um Pai de Santo usar com orgulho um colarinho clerical; espero o dia em que um Sheik do Islã for tratado no púlpito da minha igreja como um autêntico sacerdote do Deus Eterno e não apenas como uma curiosidade religiosa. Nesse dia, opiniões como essa do juiz federal não passarão de uma gota no oceano. Melhor dizendo, não passarão de drop dead, (gota morta), como falam os americanos.

O que na realidade esse juiz fez, não foi nada além de defender a própria religião, pois quem considera que as igrejas eletrônicas, novidade dos nossos dias, tenham mais consistência de fé que os credos que sobreviveram há séculos e milênios de perseguições e intolerância, está subliminarmente motivado por um sermão descontextualizado, pregado por um pastor sem escrúpulos.

Nunca vi uma bandeira de religião alguma na mão de Jesus, Buda ou de Maomé. Até onde conheço, a sã doutrina cristã nunca soube que o Deus de Jesus Cristo se posicionasse favorável e incondicionalmente na defesa de um povo em detrimento de outros. O que tenho visto e disso sou testemunha é que ele promove a libertação dos cativos e pune os opressores, independentemente de quais sejam as suas religiões.

Os ecumenistas, os ativistas contra a intolerância religiosa, pregadores do diálogo inter-religioso e nós, que participamos de eventos do porte desse que aconteceu esta semana, estamos anos luz atrás de um visionário solitário que viveu no século XIII da nossa era. Francisco de Assis propôs na montagem do primeiro presépio, aquilo que podemos chamar de confraternização total. Em apenas uma representação com bonecos de barro ele conseguiu juntar, em uma mesma significativa cena, anjos e homens, reis e servos, pessoas e animais, judeus e magos babilônicos, céus e terra. Será que este presépio nos diz alguma coisa?

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