O que é PÁSCOA? III

Tradicional Páscoa judaica,
A Páscoa de Jesus
Jesus toma parte na Páscoa judaica. Ele desejaria que ela não fosse o começo do fim, mas é durante esta festa que ele anuncia a nova aliança. Na Páscoa, Jesus pronuncia pa­lavras e realiza atos que pouco a pouco mudam o seu sentido. Temos assim a Páscoa do Filho único de Deus, que vai ao Templo, porque lá ele sabe que é a casa de seu Pai, Lc 2.41-51; a Páscoa do novo Templo, na qual Jesus purifica o san­tuário provisório e anuncia o santuário defi­nitivo: seu corpo ressuscitado, Jo 2.13-23; a Páscoa do Pão multiplicado, que será seu corpo oferecido em sacrifício, Jo 6.51; a Páscoa do novo Cordeiro, na qual Jesus toma o lugar da vítima pascal, institui a nova refeição pascal e realiza o seu próprio êxodo, passagem deste mundo pecador para o Reino do Pai, Jo 13.1.

Os evangelistas compreenderam bem as in­tenções de Jesus e as retrataram com matizes vibrantes. Os Sinóticos descrevem a última refeição de Jesus, mesmo sendo consumida na vigília da Páscoa, como uma refeição pascal: a Ceia é feita dentro dos muros de Jeru­salém, e é enquadrada por uma liturgia que inclui, entre outras coisas, a recitação do Hallel, Mc 14.6. Mas, na verdade trata-se da refeição de uma Páscoa nova. Nas bênçãos rituais consagrando o pão e o vinho, Jesus inaugura a instituição da eucaristia, e dando o seu corpo para ser quebrado e seu sangue para ser derrama­do. Ele descreve a sua morte como o sa­crifício da Páscoa da qual ele é o novo Cor­deiro, Mc 14.22-24. Já João prefere sublinhar esse fato inserindo em seu evangelho diversas alusões a Jesus-Cordeiro, Jo 1.29,36, e fazendo coincidirem, na tarde do dia 14 de Nisan, a imolação do cordeiro (18,28; 19.14, 31 e 42, e a morte na cruz da verdadeira vítima pascal 19.36.

Páscoa cristã.
A Páscoa dominical.
Crucificado na véspera de um sábado, Mc 15.42, Jesus ressuscita no dia seguinte a esse mesmo sábado: o primeiro dia da semana, Mc 16.2. É também nesse primeiro dia que os Apósto­los reencontram seu Senhor ressuscitado: aparece-lhes durante uma refeição que reedi­ta a Última Ceia, Lc 24.30, 42; Mc 16.14; Jo 20.19-26; At 1.4. Será, portanto, no primeiro dia da semana que as assembleias cristãs irão se reunir para a fração do pão, At 20.7;  ICo 16.2. Esse dia bem depressa receberá um nome novo: o Dia do Senhor, dies Domini, o domingo, Ap 1.10. Ele lembra aos cristãos a ressurreição de Cristo, une-os a ele em sua eucaristia, e os faz se voltarem para a expectativa de sua parusia, ICo 11.26.

A Páscoa anual.
Além da Páscoa dominical, há também para os cristãos uma celebração anual que dá à Páscoa judaica um conteúdo novo. Os judeus celebravam sua li­bertação do jugo estrangeiro e esperavam um messias libertador nacional; os cristãos festejam sua libertação do pecado e da morte, e se unem ao Cristo crucificado e ressuscitado para partilhar com ele a vida eterna, e reafirmarem a sua esperança na parusia gloriosa. Nessa noite que brilha aos seus olhos como o dia, eles se prepararam para o seu encontro na santa Ceia com o Cordeiro de Deus, que car­rega e tira os pecados do mundo. Muitos deles se reúnem para uma vigília em que o relato do Êxodo lhes é lido numa dimensão nova, IP 1,13-21. Eles constituem o povo de Deus no exílio, caminham com os rins cingidos, libertados do mal para a Terra Prometida do Reino dos Céus.

Uma vez que Cristo, sua vítima pascal, foi imolado, eles têm que celebrar a festa, não com o velho fermento de má conduta, mas com os ázimos de pureza e de verdade, ICo 5,6. Com Cristo, eles viveram pessoalmente o mistério da Páscoa morrendo para o pecado e ressusci­tando para uma vida nova, Rm 6.3-11; Cl 2.12. Por isso a festa da ressurreição de Cristo bem cedo se torna o momento privilegiado do batismo: ressurreição dos cristãos nos quais revivem o mistério pascal. A contro­vérsia do século II sobre a data da Páscoa em nada compromete este sentido profundo que sublinha a superação definitiva da festa judaica.

A Páscoa escatológica.

O mistério pascal será para o cristão o arremate que o une à morte e à ressurreição, e prepara para o encontro com seu Senhor. A Páscoa terrestre prepara para eles essa últi­ma passagem, essa Páscoa do além. Com efeito, o termo Páscoa não designa só o mis­tério da morte e da ressurreição de Cristo, nem só o rito eucarístico semanal ou anual; designa também o banquete celeste para o qual todos fomos convidados. O Apocalipse nos faz levantar os olhos para o Cordeiro ainda marcado pelo seu suplício, mas vivo e de pé, que investido de glória atrai para si os seus mártires, Ap 5.6-12; 12.11. Segundo as suas próprias pala­vras, Jesus cumpriu verdadeiramen­te a Páscoa pela oblação eucarística de sua morte, por sua ressurreição, pelo sacramen­to perpétuo de seu sacrifício, enfim por sua parusia, Lc 22.16, que deve nos reunir para a alegria da festa definitiva, no reino de seu Pai, Mt 26.29.

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