Jesus toma
parte na Páscoa judaica. Ele desejaria que ela não fosse o começo do fim, mas é
durante esta festa que ele anuncia a nova aliança. Na Páscoa, Jesus pronuncia
palavras e realiza atos que pouco a pouco mudam o seu sentido. Temos assim a
Páscoa do Filho único de Deus, que vai ao Templo, porque lá ele sabe que é a
casa de seu Pai, Lc 2.41-51; a Páscoa do novo Templo, na qual Jesus purifica o
santuário provisório e anuncia o santuário definitivo: seu corpo
ressuscitado, Jo 2.13-23; a Páscoa do Pão multiplicado, que será seu corpo
oferecido em sacrifício, Jo 6.51; a Páscoa do novo Cordeiro, na qual Jesus toma
o lugar da vítima pascal, institui a nova refeição pascal e realiza o seu
próprio êxodo, passagem deste mundo pecador para o Reino do Pai, Jo 13.1.
Os
evangelistas compreenderam bem as intenções de Jesus e as retrataram com
matizes vibrantes. Os Sinóticos descrevem a última refeição de Jesus, mesmo sendo
consumida na vigília da Páscoa, como uma refeição pascal: a Ceia é feita dentro
dos muros de Jerusalém, e é enquadrada por uma liturgia que inclui, entre
outras coisas, a recitação do Hallel,
Mc 14.6. Mas, na verdade trata-se da refeição de uma Páscoa nova. Nas bênçãos
rituais consagrando o pão e o vinho, Jesus inaugura a instituição da eucaristia,
e dando o seu corpo para ser quebrado e seu sangue para ser derramado. Ele
descreve a sua morte como o sacrifício da Páscoa da qual ele é o novo Cordeiro,
Mc 14.22-24. Já João prefere sublinhar esse fato inserindo em seu evangelho diversas
alusões a Jesus-Cordeiro, Jo 1.29,36, e fazendo coincidirem, na tarde do dia 14
de Nisan, a imolação do cordeiro
(18,28; 19.14, 31 e 42, e a morte na cruz da verdadeira vítima pascal 19.36.
Páscoa
cristã.
A Páscoa
dominical.
Crucificado
na véspera de um sábado, Mc 15.42, Jesus ressuscita no dia seguinte a esse
mesmo sábado: o primeiro dia da semana, Mc 16.2. É também nesse primeiro dia
que os Apóstolos reencontram seu Senhor ressuscitado: aparece-lhes durante uma
refeição que reedita a Última Ceia, Lc 24.30, 42; Mc 16.14; Jo 20.19-26; At
1.4. Será, portanto, no primeiro dia da semana que as assembleias cristãs irão
se reunir para a fração do pão, At 20.7;
ICo 16.2. Esse dia bem depressa receberá um nome novo: o Dia do Senhor, dies Domini, o domingo, Ap 1.10. Ele
lembra aos cristãos a ressurreição de Cristo, une-os a ele em sua eucaristia, e
os faz se voltarem para a expectativa de sua parusia, ICo 11.26.
A Páscoa
anual.
Além da
Páscoa dominical, há também para os cristãos uma celebração anual que dá à Páscoa
judaica um conteúdo novo. Os judeus celebravam sua libertação do jugo
estrangeiro e esperavam um messias libertador nacional; os cristãos festejam
sua libertação do pecado e da morte, e se unem ao Cristo crucificado e
ressuscitado para partilhar com ele a vida eterna, e reafirmarem a sua
esperança na parusia gloriosa. Nessa noite que brilha aos seus olhos como o
dia, eles se prepararam para o seu encontro na santa Ceia com o Cordeiro de
Deus, que carrega e tira os pecados do mundo. Muitos deles se reúnem para uma
vigília em que o relato do Êxodo lhes é lido numa dimensão nova, IP 1,13-21. Eles
constituem o povo de Deus no exílio, caminham com os rins cingidos, libertados
do mal para a Terra Prometida do Reino dos Céus.
Uma vez que
Cristo, sua vítima pascal, foi imolado, eles têm que celebrar a festa, não com o
velho fermento de má conduta, mas com os ázimos de pureza e de verdade, ICo
5,6. Com Cristo, eles viveram pessoalmente o mistério da Páscoa morrendo para o
pecado e ressuscitando para uma vida nova, Rm 6.3-11; Cl 2.12. Por isso a
festa da ressurreição de Cristo bem cedo se torna o momento privilegiado do batismo:
ressurreição dos cristãos nos quais revivem o mistério pascal. A controvérsia
do século II sobre a data da Páscoa em nada compromete este sentido profundo
que sublinha a superação definitiva da festa judaica.
A Páscoa
escatológica.
O mistério
pascal será para o cristão o arremate que o une à morte e à ressurreição, e prepara
para o encontro com seu Senhor. A Páscoa terrestre prepara para eles essa última
passagem, essa Páscoa do além. Com efeito, o termo Páscoa não designa só o mistério
da morte e da ressurreição de Cristo, nem só o rito eucarístico semanal ou
anual; designa também o banquete celeste para o qual todos fomos convidados. O
Apocalipse nos faz levantar os olhos para o Cordeiro ainda marcado pelo seu
suplício, mas vivo e de pé, que investido de glória atrai para si os seus
mártires, Ap 5.6-12; 12.11. Segundo as suas próprias palavras, Jesus cumpriu
verdadeiramente a Páscoa pela oblação eucarística de sua morte, por sua
ressurreição, pelo sacramento perpétuo de seu sacrifício, enfim por sua
parusia, Lc 22.16, que deve nos reunir para a alegria da festa definitiva, no
reino de seu Pai, Mt 26.29.
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