Caminhos que descaminharam

Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele. Provérbios 22.6
Adoração dos magos, desenho de Edward Burne-Jones em 1888
A filha de um pastor muito conhecido exibe orgulhosamente um amuleto para a sua proteção que diz ser autêntico, pois foi buscá-lo na Índia e o recebeu diretamente das mãos do seu guru indiano. Notícias de filhos de pastores envolvidos em assaltos, tráfico de drogas, sequestros e outros delitos circulam nos noticiários há bastante tempo. Então, o que há de errado com o provérbio bíblico acima?

Para ser sincero e honesto, eu conheço poucos filhos de pastores que permaneceram na igreja em que seus pais eram ministros. Alguns desses poucos, apesar de estarem na igreja, são membros manifestamente insatisfeitos ou tem participações mínimas nas atividades locais.

Existe um palavrão na Teologia que pode dar uma pista bem consistente do que seria uma das principais razões desse paradoxo. O palavrão é anfictionia, e não é preciso consultar o dicionário, porque lá diz apenas que é uma assembleia de anfictiões.  Mas a anfictionia religiosa é algo muito preciso do que esta definição simples, principalmente no Primeiro Testamento. Na antiguidade cabia ao pai legar a um dos filhos, que nem sempre era o primogênito, além da herança de bens materiais, a sua herança religiosa, ou, como dissemos anteriormente, a sua anfictionia religiosa. Por isso é que nas suas páginas encontramos constante o chamado conclamando o povo a retornar a sua fé ao Deus dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó. Isso demonstrava a importância de se manter firma na fé dos antepassados, pois nela estava continha toda a tradição oral e escrita que unia o povo de Israel.

Por outro lado, encontramos também as diversas maneiras com que essa anfictionia foi transmitida: através de falcatruas, como a de Isaque a Jacó, ou através de predileção, como foi a de Jacó para José. Não quero dizer com isso que os colegas pastores foram omissos nessa anfictionia aplicada na educação dos filhos, e o resultado se nota através dos absurdos descritos acima.

Eu penso, e que me desculpe quem possa se sentir atingido, mas que esses são verdadeiros retrocessos na vida de um cristão. Afirmar categoricamente que um cristão não possa se converter a outro credo, não atrevo. Mas tudo me leva a crer que este nunca foi um cristão de fato, ou, como dizia John Wesley, foi um quase cristão.

Todos os caminhos que a Bíblia aponta nos faz crer que isso não é uma simples falácia ou delírio de alguém supercomprometido com o Cristianismo. Como exemplo podemos observar que não foram todas as vezes que próprio Jesus aceitou ofertas voluntárias de pessoas que queriam segui-lo. A alguns ele disse: volta para a tua casa e conta o que Deus fez por ti. De modo semelhante temos os magos do oriente, que representavam as maiores autoridades científicas de então. São estes que deixaram de lado os seus estudos profundos e compromissos inadiáveis, para ir atrás de uma estrela que apontava na direção de uma criança que viria para transtornar o mundo e as coisas que eles tão bem conheciam. Alguém que viria para inaugurar um caminho sem volta.

O Salomão dos provérbios tem certa razão. Contudo, uma coisa é ensinar o caminho a criança. Outra é garantir que ela permanecerá firme nele. Muita gente recebe um monte de coisas boas e não sabe o que fazer com qualquer delas. Muita gente recebe uma responsabilidade de levar a herança que recebeu dos pais um pouco mais adiante, mas assim como fez Isaque, cabula nessa sua responsabilidade moral. Muita gente tem até a noção do caminho que deve andar, mas anda por outros caminhos guiados por experiências alheias, que dificilmente foram reveladas pela anfictionia religiosa de seus pais e avós na fé.

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