Um bípede sem plumas

Que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites?
Salmo 8, cove-bibletalk.blogspot.com
A história da Filosofia narra um curioso episódio, que eu resumo para você. Diante da multidão assustada, Platão afirmou: o homem é um bípede sem penas. Diógenes, com cinismo, depenou um galo e o atirou na roda, dizendo: eis aí o homem de Platão. Mas este retruca, imperturbável: o homem é e continuará sendo um bípede sem plumas, mas um bípede com unhas arredondadas.

Essa história, com sabor de anedota, mostra bem a desilusão dos que buscam uma compreensão racional e absoluta do ser humano. Até porque, como os gregos sabiam, o fenômeno humano é inacabado e se encontra sempre em estado de gestação. Podemos dizer que o ser humano é apenas um embrião da realidade humana, porque mergulhado em um processo incessante de realização, como de resto estão todas as coisas. Friedrich Nietzsche criou um verdadeiro aforismo: o homem é um estudo sem final.

Nesta segunda visita que faço ao salmo 8, quero me ater especialmente à sua pergunta: que é o homem? Ao respondê-la, o salmista aponta duas dimensões importantes do ser humano.

Primeiro, o seu esmagamento e a sua perplexidade diante do mistério da vida, emoção que já transita na própria pergunta. Essa experiência perpassa várias filosofias e é parte importante da nossa história existencial. Mesmo sem o pessimismo de Schopenhauer ou Cioram, e também sem a amargura do nosso poeta Augusto dos Anjos, somos frequentemente assaltados pela ausência de significado para a existência; pela falta de um projeto definido que nos leve realmente a desejar viver.

Mas o salmista mostra também a face luminosa da vida humana: por um pouco menor do que Deus. No salmo 82, Asafe reforça a afirmação de Davi: eu disse que vocês são deuses, e todos são filhos do Altíssimo - declaração que o Cristo repete no Evangelho.

Este salmo, para a fé cristã, ajuda a compreender melhor o homem Jesus, diante de quem disse Pôncio Pilatos: Ecce homo, eis o homem. Porque o Cristo reúne na sua pessoa as duas dimensões mencionadas pelo salmista. Ele é o servo de todos, e de todos é o Senhor. Assim Paulo de Tarso o apresenta na sua carta aos filipenses.

Donizetti, professor de Filosofia, declarou, em uma de suas aulas, que só viu o ser humano a partir de Karl Marx. É inegável que o pensamento de Marx centraliza a sociedade, e que o pensador teve o grande mérito de trazer a Filosofia do céu para a terra, visando à solução dos problemas humanos. O fator econômico é central em Marx - e o estômago é priorizado. Jesus também tem compaixão dos famintos, e até multiplica os pães. Mas o homem de Nazaré vê o ser humano não apenas como um consumidor de bens materiais, quando afirma: nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.

Jorge Howard conta a respeito do homem que, em um congresso, vive uma crise de amnésia. E entrando desarvorado no salão de conferências pergunta, perplexo, à assembléia ali reunida: algum dos senhores sabe quem eu sou? Se bem que, em nível não-patológico, é freqüente, em nossos dias, a crise de identidade. Quem somos nós? Que é o homem?

Em Jesus, temos a resposta do Evangelho de Deus. Ele é o protótipo do ser humano, do novo homem, do novo Adão e da nova Eva. Como nós também devemos ser. E seremos, com a graça de Deus.

É importante lembrar que este salmo
foi escrito também para você.

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