Surfistas terminais

Cristo carregando a cruz, Tissiano em 1565
Na noite passada eu tive um sonho bastante estranho que se desenrolou entre um grupo de surfistas mais que radicais, aos quais dei o nome de surfistas terminais. Estranho era sonho não somente pela dramática situação a que ele se referia, como também pelo fato ser sonhado justamente por mim, que jamais subi numa prancha de surf. Antes de descrevê-lo quero dizer que não guardo qualquer tipo de ressentimento ou prevenção contra esse esporte ou pelos que o praticam. Embora morando em uma cidade praiana, eu nunca pratiquei o surf, mas não sei se foi por medo ou se por falta oportunidade.

A minha praia imaginária, digo que é uma praia, embora não me lembre da areia, era um costão ladeado por duas escarpas bem altas. Uma delas era completamente lisa e vertical, formando um ângulo de noventa graus com a água. A outra era uma montanha escarpada, cuja escalada se fazia perigosa e difícil. Esses eram os dois únicos locais de acesso por terra à área onde as ondas se formam e onde os surfistas, com sofreguidão, a esperam. Os surfistas mais abastados recorriam ao helicóptero para lá chegarem.

Aqueles que, dentre os muitos que desistiam antes, lá chegavam, se deparavam com a verdadeira e cruel dificuldade daquele local. Uma larga barreira de corais que unia as duas montanhas, e que ficava escondida a poucos centímetros da flor d’água. Este paredão ora rebatia as ondas com a mesma intensidade com que as ondas o atingiam, ora travava as pranchas impedindo que elas prosseguissem em seu rumo. Esses dois fatores não somente agregavam extrema dificuldade aos esportistas, tornando a aventura um caminho sem volta, como também os fazia ficar por longos períodos, até por dias, a espera da onda perfeita, que os permitisse superar a barreira de corais.

Como intérprete, eu apenas podia antever a angustia da espera daqueles rapazes e moças, que era aumentada exponencialmente pela fome, pela incerteza e pelo medo do que os esperava adiante. Como espectador, porém, eu testemunhava o trágico fim dos jovens que tinham seus corpos dilacerados e seus membros arrancados pelos afiados corais.

A despeito de todo o drama discorrido no meu sonho, a minha atenção se voltou mais objetivamente para uma pessoa que havia conseguido fazer a travessia quase ilesa. Pude reparar que o seu olhar não demonstrava qualquer alegria ou orgulho pela inusitada conquista, senão uma amargura profunda de alguém que parecia estar arrependido pelo simples fato de estar vivo em uma cena onde tantas vidas foram ceifadas. É o mesmo sentimento que experimentaram os prisioneiros resgatados dos campos de concentração nazistas, pelos sérvios que sobreviveram à guerra na Bósnia e pelas pessoas que escaparam por pouco das grandes calamidades.
  
Queria, aproveitando-me do sonho, para chamar a atenção para a seriedade que envolve esse sentimento, ao qual os psicólogos dão o nome de Síndrome do Sobrevivente, pois penso que ele deveria ser, principalmente no período que antecede e no imediatamente posterior à Páscoa, muito mais próximo de nós cristãos do que de fato ele tem sido. A alegria da ressurreição não pode nunca esconder a realidade de que ainda há muitas pessoas que vivem na angustiante espera de uma onde que os permita sobrepujar as dificuldades que a vida se lhes apresenta. A convicção da fé na vitória sobre a morte não pode disfarçar a macabra trágica trajetória daqueles que estão se arrebentando na caminhada da fé, e que estão morrendo sem conseguir, sequer, ver um pedaço daquilo que os antigos chamavam de Praia Áurea Eternal.

Foi apenas um sonho, que se alguém quiser torná-lo enredo de um livro ou de um filme, não se esqueça de me dar algum crédito, mas que mostrou, pelo menos para mim, a dificuldade que existe em se manter de pé na tábua da salvação. Se por um lado encontramos montanhas de tentações, por outro, vamos nos deparar com um paredão de percalços. Por essas e outras coisas que eu não posso aceitar a tal salvação individual que tanto é anunciada. Penso no quão grande seria a tristeza daqueles que alcançariam esse tipo de salvação, ao olharem para trás e virem os corpos dilacerados daqueles que não conseguiram.

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