Um salmista que desejava fugir

Então, disse eu: quem me dera asas como de pomba! Voaria e acharia pouso. Eis que fugiria para longe e ficaria no deserto. Leia Salmos 55
Davi e Samuel, Raffaello em 1517
Texto do rev. Jonas Rezende.
Grande parte da humanidade parece compor uma verdadeira legião em fuga desesperada. De fato, quando a nossa vida se torna como uma panela de pressão sem válvula de escape, somos tentados a experimentar o doloroso desejo de evasão. Aí estão as drogas, o sexo sem amor, a velocidade vertiginosa, os estudos, o fascínio do computador, os negócios, a trágica saída do suicídio... e mesmo - é preciso que se diga - um tipo alienante de religião.

Davi, quando escreveu este salmo, vivia um momento muito delicado de sua vida. Ele diz: estremece-me no peito o coração, terrores de morte me salteiam; o horror se apodera de mim.

Parece a descrição da síndrome do pânico.

O salmista não usa nenhuma das formas de fuga mencionadas. Nem drogas, nem sexo desbragado, nem negócios, nem uma religião de escape.

Mas leia o seu texto com atenção e você vai perceber que o sonho do rei está marcado pela fuga. Ele quer asas. Exilar-se no deserto. Esconder-se dos traidores que o cercavam. Em uma palavra, em vez de enfrentar, como governante, a banda podre do seu povo, o salmista se concede o desejo de fugir. Afinal, ele não era feito de ferro. Um homem excepcional, mas um homem. E um homem em crise. Especialmente um homem amargurado, sem saber em quem confiar. Seu lamento é comovente: com efeito, não é inimigo que me afronta; se o fosse eu o suportaria; nem é o que me odeia quem se exalta sobre mim, pois dele me afastaria, mas és tu, homem meu igual, meu companheiro e meu íntimo amigo. Juntos andávamos e juntos nos entretínhamos, e íamos com a multidão à casa de Deus.

Muitas vezes não é essa também a nossa situação? Verdadeira ilha cercada de ameaças e desespero por todos os lados... Vicente Celestino cantava: cada parente e cada amigo era um ladrão. E você percebe que tudo o que aconteceu com o salmista também pode nos suceder, e assim empurrar-nos para algum tipo de fuga.

Mas, se somos uma geração que, em grande parte, busca fugir, a verdade é que não conseguimos escapar.

Não podemos nos evadir de Deus. Caim bem que tentou, mas teve de confrontar-se com a pergunta divina: onde está o seu irmão? O próprio salmista, em outro poema, pergunta: Para onde fugirei da tua face? Para onde me ausentarei do teu Espírito? Se subir até aos céus, eis que tu aí estás; se no Sheol fizer a minha cama, eis que tu estás aí também; se eu tomar as asas da alvorada e me deter nos confins dos mares, ainda lá haverá de alcançar a tua mão.

Fugir não é possível. Precisamos enfrentar os nossos problemas com coragem. Até porque estamos emparedados. Sem escapatória. Fugir de Deus, por outro lado, representaria, se fosse possível, perder o rumo de nossa vida, embaralhar o nosso destino. O mesmo Davi que se mostra tão sofrido e confuso neste salmo encontrou a saída, que partilha conosco, em outro de seus belos poemas: Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele e o mais ele fará.

Por que não seguir a luminosa trilha da sua experiência?


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