Entre o temor e o amor

Havia certo homem já de idade avançada e de bela aparência, Eleazar, que se sentava no primeiro lugar entre os doutores da lei. Queriam coagi-lo a comer carne de porco, abrindo-lhe a boca à força. Mas ele, cuspindo e preferindo morrer com honra a viver na infâmia. II Macabeus 6.18s

Tormento de Eleazar, Doré
 O mais frequente, para não dizer único, comentarista das minhas postagens, o Dr. Nehemias Rubim, sempre que se depara com a expressão “o temor do Senhor”, após mostrar toda a sua indignação levanta uma questão bastante complexa. Pergunta ele: afinal Deus é amor ou temor?

Se formos responder de acordo com o que a Bíblia nos transmite teremos que dar pelo menos duas respostas: uma segundo cada um dos seus Testamentos. O Primeiro, também chamado de Antigo, é useiro e vezeiro em usá-la em quase todos os assuntos. O Segundo, o Novo, passa distante quase nunca lhe fazendo referência. Para resolvermos de vez a questão teríamos que verificar qual dos dois estaria mais em acordo com a mensagem de Jesus, que como Messias de Deus, é o verdadeiro e único intérprete da Lei. Atrevo-me a dizer que ambos estão certos, não se contradizem, e, pelo contrário, se complementam.

Sabemos bem que qualquer tipo de relacionamento nos leva sempre a fazer escolhas, nos leva sempre a tomar decisões, e o relacionamento com Deus não teria como ser diferente. A própria mensagem do evangelho tramita na mesma linha e sintonia da mensagem profética do Primeiro Testamento: ela é sempre uma negação da mensagem pregada pelos príncipes desse mundo. A pregação do evangelho nunca prometeu aos seus locutores e ouvintes a tão esperada utopia do mar de rosas. E é justamente nesse ponto que interação entre o amor e o temor se faz mais necessária. Isso me leva a ter que afirmar que qualquer decisão que tem como parâmetro a Palavra de Deus tem necessariamente que estar debaixo desses dois fatores de forma igualitária e não tendenciosa.

A decisão baseada unicamente no amor nos levaria a olhar apenas para as consequências, e nunca atacar as verdadeiras causas. Por outro lado, qualquer decisão fundamentada exclusivamente no temor nos jogaria inexoravelmente no fanatismo. Parece ser uma escolha simples, principalmente quando o ônus da decisão recai apenas sobre nós mesmos, e mais simples ainda quando recai sobre pessoas que não conhecemos. Porém, se torna profundamente causticante quando as nossas decisões envolvem entes queridos, e é mais dramática ainda quando não temos controle sobre as suas consequências.

Peço licença para mais uma vez tomar emprestado a sabedoria de um texto deuterocanônico. Um texto que foi escrito no intervalo de tempo entre os dois Testamentos da Bíblia. Poderia muito bem me servir da narrativa de Daniel 3, também dessa mesma época, que fala dos seus três amigos na fornalha de Nabucodonosor. Mas esse texto, a despeito de ser um texto riquíssimo, não contempla aquele que deveria ser o argumento mais decisivo nas nossas escolhas. Não fala precisamente em que situação o amor e o temor mais precisam andar lado a lado.

II Macabeus 6 narra a decisão e Eleazar, quando, pela imposição das leis do Império Selêucida, se viu coagido pela força bruta a comer carne de porco, contrariando o que prescrevia a lei judaica. A escolha era simples: comer ou morrer. Podemos ver que em tese a questão não tratava apenas disso. Estava em jogo algo muito maior e mais profundo: uma vida de dedicação e integridade aos desígnios de Deus. Com noventa anos, Eleazar tinha apreço pela própria vida no que diz respeito à preservá-la da morte, porém, mais ainda de como ela serviria de exemplo para outros. Ele mesmo diz: Não é próprio da nossa idade usar de tal fingimento, para não acontecer que muitos jovens suspeitem de que eu, aos noventa anos, tenha passado aos costumes estrangeiros. Eles mesmos, após o meu gesto hipócrita, e por um pouco de vida, se deixariam arrastar por causa de mim, e isso seria para a minha velhice a desonra e a vergonha. 

Eleazar, porém, vai além da ponderação por amor às próximas gerações. Ele evoca o que deveria ser o verdadeiro temor ao Senhor: E mesmo se eu me livrasse agora dos castigos dos homens, não poderia escapar, nem vivo nem morto, das mãos do Todo-Poderoso. Sendo assim, se eu morrer agora corajosamente, mostrar-me-ei digno de minha velhice, e terei deixado aos jovens um nobre exemplo de zelo generoso, segundo o qual é preciso dar a vida pelas santas e veneráveis leis.

Amor e temor. Duas palavras tão desassociadas no nosso vocabulário cotidiano. Duas palavras completamente distintas no nosso jeito comum de viver. Duas palavras que só encontram os seus verdadeiros sentidos em uma vida digna vivida segundo o que nos orienta a Palavra de Deus.

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