São Irineu de Lion

Irineu de Lion, iconografia bizantina
Muitos pastores não se dão conta, mas todos temos com Irineu uma dívida impagável. Foi este bispo e mártir do Cristianismo que preservou uma das mais importantes e significativas tradições da nossa fé: a sucessão apostólica. A sucessão apostólica é nada menos que a linha de conexão direta que faz com que uma ordenação pastoral seja uma continuidade ininterrupta da bênção que Jesus concedeu aos apóstolos, quando, ao impor-lhes as mãos, comissionou-os ao ministério da doutrina, da palavra e dos sacramentos da sua Igreja. Essa sucessão é a garantia de várias promessas, uma delas e a promessa de que as portas do inferno não prevaleceriam contra a igreja. Uma ruptura total ou parcial nesta linha pode significar que: os ministros do evangelho não se obrigam mais a serem fiéis aos ensinamentos dos apóstolos, ou que as promessas de Jesus não foram cumpridas.



Essa linha básica doutrinária foi formulada por Irineu no século II da nossa era, e teve o propósito de trazer a orientação segura e oportuna para que a Igreja se desviasse da onda de gnosticismo que a assolava incessantemente. Todo o ocultismo e tendência ao misticismo estranhos à fé cristã foram devidamente combatidos por Irineu, que trouxe de volta a doutrina simples e inteligível dos apóstolos, deixando bem evidente que qualquer um que se aventurasse a ensinar algo diferente ou contrário à doutrina que os apóstolos ensinaram, não tinha confirmado em si ou em seu ministério a integridade dessa sucessão.

Existem fortes indícios de que Irineu tenha nascido em Esmirna, na Turquia, em uma família convertida à cristã, o que explica a sua disciplina rígida na ortodoxia e na tradição da Igreja. Foi um dos mártires da perseguição levada a cabo pelo imperador Marco Aurélio. Sua morte se deu em Roma de forma desconhecida, e data de 177 d.C. Seu túmulo, na Igreja de São João em Lion, foi violado e destruído, em 1562 pelos hugenotes, nas guerras religiosas que ocorreram na Europa e Ásia Menor.

Este homem santo escreveu uma série de livros, sendo que dentre os mais importantes está a série de cinco volumes intitulada Contra as Heresias. Existem hoje apenas fragmentos do texto original em grego, mas a tradução contemporânea a esta em latim está perfeitamente preservada. Sua obra fundamenta-se no Segundo Testamento, mas deixa de citar alguns livros, dentre eles as carta a Filemom, II Pedro, III João e a epístola de Judas, que muito provavelmente não eram conhecidas ou não haviam sido escritas na sua época.

O foco da teologia de Irineu é a Unidade de Deus. Doutrina que faz frente às concepções gnósticas de demiurgos e seres intermediários entre Deus e os homens. É também enfático em afirmar que foi Deus, e não um ser menor, que criou o universo, e o mantém sob seu controle permanente. Irineu diz que a nossa salvação se dá, essencialmente, através da encarnação de Deus como homem. Ele caracteriza que a penalidade para o pecado é a morte. Deus, porém, é imortal e incorruptível, e simplesmente tornou-se unido à natureza humana através de Jesus Cristo. Ele transmite essas qualidades para nós, e elas se espalharam, por assim dizer, como uma infecção benigna. Portanto, Irineu entende a expiação de Cristo se deu através da sua encarnação, em lugar da sua crucificação, embora esta seja parte integrante da doutrina de Justino Mártir, em quem tanto se inspirou.

São Irineu nos deixou pérolas preciosas do seu pensamento, dentre elas:
Jesus Cristo nosso Senhor, por causa de seu amor superabundante, se fez o que nós somos, para fazer de nós o que Ele próprio é (Contra as Heresias Livro V, prólogo).

O Verbo de Deus se fez homem, para que o homem receba a filiação divina... Pois, como poderíamos participar da eternidade e imortalidade, se, antes, não se tivesse feito como nós o Eterno e Imortal, de modo que nossa corruptibilidade fosse absorvida por sua incorruptibilidade, e nossa mortalidade por sua imortalidade?

Com tal Igreja, por causa da sua peculiar preeminência, deve estar de acordo toda Igreja, porque nela... foi conservado o que a partir dos Apóstolos é tradição. (Contra as Heresias 3, 2).

É com esta igreja (de Roma), em razão de sua mais poderosa autoridade de fundação, que deve necessariamente concordar toda Igreja, isto é, devem concordar os fiéis procedentes de qualquer parte; nela sempre se conservou a Tradição que vem dos Apóstolos (Contra as Heresias II, 3-1-3).

Onde está a Igreja, aí está o Espírito Santo de Deus, aí estão a Igreja e o tesouro de todas as graças.


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