O vinde e o ide

O homem de quem tinham saído os demônios rogou-lhe que o deixasse estar com ele; Jesus, porém, o despediu, dizendo: Volta para casa e conta aos teus tudo o que Deus fez por ti. Então, foi ele anunciando por toda a cidade todas as coisas que Jesus lhe tinha feito. Lucas 8.38s
O gadareno, John Piper (1946-)
O texto bíblico de onde foram tirados esses dois versículos é de extrema complexidade. Recomendo que ele seja lido por inteiro, podendo ser encontrado no capítulo 8 do evangelho segundo São Lucas, do verso 26 ao 39.

Um dos mandamentos mais conhecidos e compreendidos dos evangelhos sinóticos foi dado por Jesus em um momento de bastante tensão entre ele e seus discípulos. Jesus falava de sua iminente paixão e morte quando foi chamado à parte e repreendido por Pedro, que tentava dissuadi-lo a mudar o enredo do seu ministério terreno, evitando o confronto final em Jerusalém. Arreda-te de mim Satanás, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens. Foi esta a resposta de Jesus, que logo a seguir ditaria o mandamento, não somente aos doze, mas a todo o povo: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. (Mc 8.31-38)

Nada é mais recomendável a um discípulo do que seguir de perto as orientações e os exemplos de seu mestre. Segundo entendemos, esse foi o convite de Jesus a várias pessoas que atravessaram o seu caminho: o jovem rico, aquele que pleiteava parte da herança do irmão, o que queria “sepultar” os pais etc. Contudo, o gadareno que mesmo sem convite se mostrou empenhado a segui-lo, Jesus diz: Volta para casa e conta aos teus tudo o que Deus fez por ti.

Talvez seja neste pequeno trecho de evangelho que se encontre uma das maiores questões com que Jesus desafia o nosso ministério: conhecermos com precisa exatidão, unicamente através da sensibilidade calcada na experiência da fé, a hora em que devemos vir atrás de Jesus e a hora ir ao mundo para testemunhá-lo.

Já falei aqui da camiseta em que está estampada a frase: “Andar com Jesus no peito é fácil, difícil é ter peito de andar com Jesus.” Se andar ao lado do mestre, seguir de perto os seus passos, quando temos todo um Testamento a nos ensinar, o exemplo decisivo dos nossos pais na fé e a história milenar de uma igreja, já encontramos essa dificuldade toda, imaginem o quanto não foram pesadas as palavras de Jesus aos ouvidos do endemoninhado de Gadara.

Aquele homem nunca antes ouvira falar de Jesus, mesmo porque no seu exílio, que era tanto opcional quanto imposto pela sociedade local, tornou nula a possibilidade de alguém chegar até ele. Situação essa muito mais agravada pela negação da vida, que se expressava na sua forma mais degradante. Aquele homem vivia nos sepulcros saciando as suas necessidades com cadáveres. Peripsema é a palavra grega usada para quem tem este tipo de comportamento. Era ele que andava nu e que transferia golpes dolorosos contra todos que cruzavam seu caminho, e na falta desses, contra si mesmo. Aquele mesmo homem, em quem não se podia pôr cadeias, que despedaçava os grilhões, que não se subordinava a qualquer lei, fosse ela dos homens ou de Deus, e que era o terror de toda uma região, encontrava-se agora aos pés de Jesus, manso, lúcido e propício a segui-lo.

Se há alguém entre que nós tem muitos motivos para seguir Jesus, o gadareno tinha muito mais. Na verdade ele tinha uma legião de motivos. Em nosso julgamento, ninguém mais indicado e mais necessitado de andar com Jesus pode ser encontrado na Bíblia. Aquele era o protótipo do discípulo perfeito, pois ele havia descido ao mais profundo abismo da degradação moral, conhecido as maiores mazelas que a alma humana pode suportar, seu comportamento era tão irracional que cabia apenas aos animais. Ele era tão perfeito como discípulo que Jesus decidiu mandá-lo à frente de todos os demais. Vai e conta apenas o que Deus fez por ti, e isso já será suficiente.

É aqui que uma vez o evangelho de Jesus joga por terra todas as minhas convicções. Nessa história mais uma vez me vejo na obrigação de rever todos os meus conceitos de vida cristã. Mais uma vez eu vejo quão grande é o abismo que me separa do ideal de vida. Ideal esse, alcançado por um homem endemoninhado, que tudo o que fez foi deixar-se ser alcançado pela graça, simplesmente colocando-se aos pés de Jesus. 

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