Pouca conversa e muita atitude

Eis aí vos dei autoridade para pisardes serpentes e escorpiões e sobre todo o poder do inimigo... Lucas 10.19
Marion e Anita Way
É bem possível que eu tenha sido um dos poucos naquele clube da Tijuca, onde fazíamos sauna, que já tinha ouvido a voz do Mario além de um breve cumprimento. Calado e atento era sua característica marcante quando estava fora do seu ambiente natural: ao lado dos necessitados. Esse era Marion Washington Way Jr., que nasceu em 1930, na Carolina do Norte, de onde saiu tão logo completou seus estudos na área das Ciências Sociais. Escolheu ser missionário em Angola, um dos países que ainda estava sob a dominação tirânica de uma nação estrangeira. Muito cedo descobriu que não esta não poderia ser tarefa para um homem só. Então, voltou aos EUA onde contraiu matrimônio com Anita Betts. Juntamente com a aliança de casamento, deu a ela uma passagem para Angola, que, nessa altura, travava uma luta sangrenta a favor da sua liberdade e contra o seu opressor.

O casal de jovens missionários, que já tinha uma filha, não se deu conta que estava acintosamente transgredindo as leis de intolerância, de ódio e de segregação vigentes naquele país africano. Por conta da sua pregação, que consistia basicamente de ações concretas do amor era exigido pelo evangelho de Jesus Cristo, foi perseguido, preso e finalmente deportado. Desta vez calaram o Mario pela força das armas.

Mas este casal parece que tinha uma atração vocacional para servir em ambientes de conflito, e não é que vieram parar no Brasil justamente no período turbulento dos anos de 1960? O incorrigível Mario e sua família escolheram servir a Deus na pior região desta nação: na cidade do Rio de Janeiro, a mais declarada opositora do regime ditatorial, e no pior local desta cidade: no morro da Providência, no Centro. Uma comunidade que era composta basicamente de famílias de soldados que foram compulsoriamente “desalistados” após o término da Segunda Guerra, e que não teve qualquer assistência do governo para voltar aos seus estados de origem. Àquela situação deu-se originalmente o nome de Favela, nome que foi estendido a todas as comunidades que não tinham as mínimas condições de habitação.

Foi ali que por mais de uma vez o Mario transgrediu a ordem e enfrentou o poder das armas. Agora enfrentava a inflexível lei do tráfico de armas e de drogas. Nas diversas situações em que as crianças do ICP estiveram sob ameaça, o Mario, de dedo em riste, enfrentava indistintamente policiais e traficantes fortemente armados, e os enquadrava com uma autoridade que deixava todos completamente atônitos.

Essa é a autoridade que o poder das armas não tem e que o poder político desconhece. Mas é a autoridade diante da qual as forças do mal temem e tremem. É a autoridade daquele que tem a consciência plena de que está a serviço de Deus, de que foi comissionado por Jesus Cristo para pegar nos escorpiões e enfrentar as cobras, mas que ao mesmo tempo se dispõe a assumir os riscos e aceitar as consequências desses atos.

Mario nos deixou órfãos esta semana. Simplesmente dar a este homem um título, seja de diácono, de missionário ou mesmo de pastor, seria diminuir em muito o grau de influência do seu incomensurável ministério. Por algumas vezes o vi como opositor. Eu cuidava dos interesses da Federação de Jovens, que fazia retiros de Carnaval no Acampamento Clay, que era administrado pelo ICP, tendo o Mário como seu responsável direto. Eu achava que tinha direito a um bom desconto, por se tratar de encontro de jovens da igreja, e que patrocinava duzentos delegados no congresso que acontecia na Semana Santa. O Mario, por sua vez, conhecia profundamente a necessidade de receber a quantia total para usá-la no trabalho do ICP. Desta vez o conflito era comigo. Após calorosas discussões o desconto era negado, mas ele sempre arrumava um jeito de nos favorecer de outra forma, selando a paz entre nós. Nestas vezes era ele quem calava a minha boca com seus argumentos.

Expresso aqui a minha admiração e respeito pelo homem, pelo casal e pela família que atravessou fronteiras para ensinar aos cristãos do Brasil como se prega um evangelho subversivo, e como faz para enfrentar os escorpiões e cobras, armados exclusivamente com a Palavra de Deus e com atitudes exigidas pelo evangelho.

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