Até os confins da terra

Disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra. Leia Gênesis 11.1-9
Por do sol na Babilônia, Raphael Lacoste (1974-)
Eu nunca conheci o sentido exato da palavra confins antes do dia em que desembarquei no aeroporto mineiro que leva este nome e fiz o trajeto até o Centro da cidade de Belo Horizonte. Creiam em mim, realmente é longe. Contudo, por mais que quantifiquemos um valor que expresse a realidade desta palavra para o alcance do evangelho, a exigência de Cristo, quando deixou para aquele punhado de discípulos restantes a promessa do envio do Espírito Santo que aconteceu no dia em que se comemorava o Pentecoste, é maior ainda. Principalmente pelo fato de que longe, por não levar tão em consideração a distância, pois “os confins da terra” será exatamente aquele lugar onde não desejaríamos estar, e o ponto de encontro de pessoas com as quais não gostaríamos de nos relacionar.

Olhando o episódio da torre de Babel, narrado em Gênesis 11 de 1 a 9, com os olhos do Pentecostes cristão que é celebrado no dia de hoje, não podemos considerar que aquela narrativa expresse uma maldição generalizada às pretensões humanas de exclusividade e soberba. Além da nefasta confusão das línguas, que ali é preconizada, este texto fala do início da saga do homem para colonizar a terra. Podemos muito bem concluir que a ação de Deus em Babel fez com que os homens se dispersassem, pois a proposta da construção de uma torre levaria aquele grupo de pessoas a viver em contrariedade a um dos mandamentos primários de Deus: multiplicar-se e povoar a terra.

Quando olhamos para os condomínios fechados e vigiados com o melhor que a tecnologia tem a oferecer, estamos olhando diretamente para as torres de babel dos nossos tempos. São torres que não passam de uma desesperada tentativa do homem de se isolar em um gueto e pairar sobre as falsas nuvens da segurança, para de lá de cima contemplar o caos das periferias onde moram excluídos que não possuem este, por assim dizer, privilégio. É exatamente por isso que as Babéis custam cada vez mais caro, e é assim que elas se diversificam: de acordo com o tamanho do sacrifício que cada um se propõe a infligir sobre os recursos naturais e sobre a mão de obra alheia.

O texto fala em usar na construção tijolos como se fossem pedras e betume no lugar de argamassa. Uma mistura bastante sugestiva, pois combina o endurecimento de um material moldável e maleável além do necessário para o uso cotidiano, com um elemento que era usado para fazer as bolas de fogo e flechas incendiárias que eram atiradas nos inimigos. Não passa longe dos barris de pólvora que nos sentamos diariamente.

Se isso já é ruim, pior ainda é constatar que na celebração do dia escolhido por Deus para derramar o seu Espírito indistintamente sobre toda a carne, na exata data em que os primeiros cristãos foram tomados pela força avassaladora da evangelização que os levaria até os confins da terra, as igrejas de hoje estão se reunindo em guetos mais fechados que a própria Babel. É triste ver que nossas torres estão ficando cada vez mais altas, e que estão sendo construídas com indiferença sobre indiferença, e assentadas com a explosiva mistura da soberba espiritual com a pretensão de uma salvação exclusiva. Colocamos nas portas de acesso restrito as trancas do farisaísmo moderno para fazer com que a entrada dos excluídos esta se torne cada vez mais difícil.

Se faz mais que necessário compreender que maior que o dom de línguas, mais significativo do que o fogo que desce do céu, mais urgente do que a confirmação da segurança na salvação vem antes a ordem clara e objetiva de Jesus: espalharmos-nos para sermos suas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até nos confins da terra, sem o que o Pentecostes não passará de um espetáculo pirotécnico para uns poucos que estão sobre torres que nunca alcançaram o céu, pois estão prestes a desmoronar.

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