Quem me tocou?

Pedro com seus companheiros disse: Mestre, as multidões te apertam e te oprimem e dizes: Quem me tocou? Leiam Luca 8.43.48
Cristo e a hemorrissa, Paolo Veronese
Imaginem milhares de pessoas correndo e se acotovelando atrás de Jesus, e no meio delas uma mulher doente. Fazia doze anos que ela sofria desse mal e havia gastado tudo que tinha, mas em vez de melhorar, só piorava. Ela tinha sido condenada à exclusão pela sociedade e nem podia morar em sua própria casa. O capítulo 12 do Levítico nos ajuda a compreender a razão dela ser considerada imunda. Qualquer coisa que ela tocasse se tornava imunda. Isso deve ter facilitado o seu acesso a Jesus, porque quando ela chegava, as pessoas se retiravam de medo.


Ela ouvira falar muito sobre um Jesus que curava e pensou que poderia ser curada também. Mas a sua condição não permitia fazer esse pedido, então ela pensou: se eu apenas tocar as suas vestes, ficarei curada.
Esse é um tipo de pensamento estranho ao judaísmo, que não aceitava os feitos procedentes da magia. Ela não viu qualquer necessidade de estar frente a frente com ele, de estar com ele, de falar com ele. Assim Jesus também não ficaria sabendo quem era ela e nem o mal que ela sofria. E aconteceu assim. No exato instante que tocou a roupa de Jesus ela se sentiu diferente, se sentiu curada.

Por outro lado Jesus também sentiu algo estranho, sentiu que dele saiu alguma coisa.  Sabia que o seu poder tinha alcançado alguém necessitado, mas quem? Apesar de estar sendo espremido pela multidão ele pergunta: Quem me tocou? Um toque diferente na sua roupa fez desse atenção especial. Ele teve um interesse incomum em identificar essa pessoa, mas por quê? Porque ele sabia que o dom da fé não poderia ser usado por uma pessoa, sem que essa pessoa o autor e consumador da sua fé. Ninguém pode ter o poder de Jesus sem conhecê-lo. Qualquer coisa diferente disso seria magia ou superstição. Isso é importante porque hoje só interessa o resultado, ninguém quer a dinâmica da libertação, como funciona o processo. Jesus queria que ela conhecesse a cura plena e duradoura, tanto no corpo quanto na alma, e não apenas a imediata. Jesus sempre dizia que não ele, mas era a fé que tinha curado, pois é essa fé que pode guardar a pessoa de algo pior no futuro.

A reação dos discípulos foi imediata, eles eram sempre do “contra”, sempre questionando: Com tanta gente lhe apertando, o senhor ainda tem coragem de fazer esta pergunta? Eles eram racionais demais, eles viram a impossibilidade da situação. Não tinha como olhar e dizer quem foi. Eles não faziam ideia de que Jesus podia sentir o toque de alguém necessitado. Esta é a questão que sempre colocamos. É possível que Deus, tendo que controlar todo o universo, tenha cuidado de uma só pessoa? Contudo, por trás dessa pergunta há outra mais maliciosa. Como pode alguém conhecer as necessidades de um único indivíduo dentro de máquina humana como a nossa? Tentamos responder essa pergunta com teorias, filosofias e teologias, mão não dá. Você já se imaginou doente, tendo que enfrentar uma multidão, como a aquela mulher, sem acreditar que Deus lhe daria alguma atenção?

A mulher ficou trêmula de medo com a pergunta. Ela caiu aos pés de Jesus e confessou tudo. Ela estava constrangida pela sua situação e pelo jeito como procedeu. Ela se sentiu como uma criminosa. Mesmo sendo curada, a imagem que tinha de si era de uma imunda, que não merecia cura alguma. Com medo de perder a bênção contou tudo. Contou tudo sobre a sua aflição, sobre a sua rejeição. Contou tudo, sobre a sua solidão. Não é essa resposta do dom da fé em Cristo?  A sua libertação pessoal veio disso. Aconteceu muita coisa naquela ali, mas agora outro tipo de cura estava acontecendo. Quando Jesus a olhou, ela passou a se sentir aceita por Deus, perdoada por Deus, amada por Deus.

É importante que este texto seja lido segundo e evangelista Lucas, porque ele era médico e reconheceu a incapacidade dos homens médicos em curá-la. Nem mesmo Jesus chama para si autoria da cura: Minha filha, você foi curada porque teve fé. Vá em paz. Jesus se despede contando um segredo que nem ela sabia: contou-lhe que a sua cura não foi gratuita e mostrou-lhe o que ela havia oferecido a Deus por ela. Primeiro ela ofereceu a Deus o seu toque de esperança, e ele jamais poderia deixar isso passar em branco. Ofereceu a Deus um toque de persistência. Nem a multidão nem os discípulos poderiam demovê-la da ideia de ter uma experiência com Deus até que ficasse curada. E o mais importante, ela ofereceu a Deus um toque de fé, e foi aí que o milagre começou. A cura foi resultado de um ato fé que, depois  interpretação dada por Jesus, jamais seria esquecido, e serviria para toda a sua vida.

Essa mulher desafia a nossa fascinação pelo milagre pronto, pelas respostas imediatas, pela cura sem compromisso, pela bênção sem mudança de vida, pela liberdade sem perdão de pecados, pela falta de interesse em saber quem de fato está nos curando. Ela é prova cabal de que a cura é apenas o início de um processo que nos leva a liberdade plena. A prova cabal de que a melhor resposta que pode ser dada a um pedido de oração, é que Jesus está atento ao nosso problema, mesmo que a cura não venha a acontecer.

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