A barca da Igreja

Affonso Romano Sant'Anna, em 2011
Texto do poeta e escritor Affonso Romano Sant’Anna.
Muito sugestivo aquele comentário do Papa Bento XVI de que Deus estava dormindo, enquanto a barca da Igreja sacolejava e parecia que ia adernar. Alguém maldosamente pode perguntar: Mas Deus dorme?  Não. Se o universo parar para dormir será o caos. Imagine um elétron dizendo para o resto da turma do átomo: é hora de dormir. Não dá. O Papa usou uma figura de retórica, não era Deus, eram os homens, ou melhor, a Igreja mesmo que estava dormindo.

O Papa estava se referindo a algo que encontramos em Mateus 8.23-27, Lucas 8.22-25 e em Marcos 4.35-41. Marcos narra assim o acontecido: Naquele dia, sendo já tarde, disse-lhes Jesus: Passemos para a outra margem. Em seguida os apóstolos se despedem da multidão se lançam ao mar em seus barcos. A narrativa diz que havia outros barcos. Afinal, aqueles seguidores era pescadores, homens do mar. E quando se levantou o temporal, Cristo, espantosamente, não-estava-nem-aí, dormia alheio à grande agitação. No entanto, como os discípulos entrassem em pânico e acordassem o mestre, este estranhou tanto pavor, e “despertando, repreendeu o vento, e disse ao mar: Acalma-te, emudece. O vento se aquietou e fez-se uma grande bonança.

Se eu estivesse ainda num púlpito, como tantas vezes fiz na adolescência, eu diria: Meus amados irmãos! Atentai para algumas coisas específicas que quero lhes dizer. Não vou lhes lembrar que Cristo, para surpresa dos apóstolos, havia já caminhado sobre o mar. Nem vou lhes recordar que Jesus tornou piscosas aquelas águas que antes eram estéreis. Portanto, ele seria também capaz de façanhas miraculosas, como acalmar a tempestuada natureza. Mas há uma coisa neste texto bíblico que gostaria que meus amados irmãos e irmãs observassem. O texto começa dizendo uma coisa importante e que tem tudo a ver com a história da Igreja. Diz Marcos que Jesus, ao final do dia, disse aos seguidores: passemos a outra margem.

Então, torno mais explícito o que o Papa deveria ter dito, e não o disse com palavras, mas com gestos. Meus irmãos e minhas irmãs, estamos no fim de um dia, ou melhor, no fim de um período histórico. A Igreja tem que passar para ao outra margem, leiam: Passemos para a outra margem. Em Mateus o texto é mais incisivo: ordenou passar para a outra margem. Estamos numa travessia. Que o diga o apóstolo apócrifo Guimarães Rosa: O que existe é travessia.

A Igreja deveria ter feito essa travessia há muito tempo. São Francisco, há uns 800 anos já dizia que a nave da Igreja está a pique. Lutero e tantos outros, há mais de 500 anos, jogaram-se ao mar, e colocaram em dúvida a ideia de que “fora da barca não há salvação”. Era natural que Cristo falando a pescadores, usasse pedagogicamente a linguagem náutica. Mas o mundo mudou. Há quem julgue que a Igreja é um “navio fantasma” na neblina dos séculos. Outros acham que é um Titanic a caminho do iceberg. Há quem ache que os hereges são piratas perigosos. Há pescadores com a obstinação do capitão Ahab do romance Moby Dick, e há quem, parodiando os fatos, o que sucedeu, na Itália, com o capitão que largou o barco e ouviu a reprimenda: Vadda a bordo, cazzo.

Minhas amadas e meus amados irmãos leitores, é memorável o que estamos assistindo. Memorável e paradoxal. O timoneiro que largou o barco virou herói. Entregou o leme da Igreja para que outro a colocasse no rumo.

Os tempos são outros, o mar está encapelado e não dá pra voltar à “margem antiga”. Passemos a outra margem!

Texto do poeta e escritor Affonso Romano Sant’Anna publicado simultaneamente nos jornais Estado de Minas e Correio Brasiliense, em 10 de março de 2013.

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