O que é TENTAÇÃO?

A tentação do homem, Hendrik Goltzius (1558-1617)
Na Bíblia a tentação é apresentada quase que exclusivamente sob o aspecto de suas causas e fatores externos, e não como sedução ou atração para o mal, como nos acostumamos a interpretá-la hoje. É extremamente necessário que se faça esta distinção, porque no sentido de provação o sujeito do
verbo é sempre Deus, contudo, nesse último sentido o sujeito é o demônio ou a concupiscência má do homem. Quando Deus põe as pessoas à prova, o seu objetivo único é purificá-las para aumentar-lhes a fé, ao passo que os inimigos declarados dele provocam as pessoas para que elas venham sucumbir à tentação de fazerem uma escolha pecaminosa, impelindo-as deste modo para mal.

No Primeiro Testamento temos três exemplos claros desta distinção. O primeiro no Éden, quando Deus prova os limites do homem num paraíso de opções, ao passo que a serpente o impele a optar pela única restrição prescrita. Temos também a provação de Abraão, que é tentado pela consciência a oferecer seu único filho, seguindo o rigor da tradição pagã de seu povo, e clarividência de um Deus, que o desafia a ser diferente, resistindo àquele secular equívoco. Finalmente temos a provação de Jó, que ao ver seu mundo desmoronar é tentado por satanás e pelos seus três “amigos” a negar a sua convicção de retidão e a sua fé, enquanto que por Deus é provado a mantê-las imaculadas sob todas as circunstâncias. São esses exemplos que se contrapõem às convicções antigas de uma doutrina de retribuição no relacionamento com Deus. A provação de Deus não é um castigo que deve ser aceito resignada e obedientemente, é sim uma prova do seu amor e zelo para com os seus filhos. Para este Testamento, as grandes tentações do homem são a de querer rivalizar-se a Deus chamando para si os seus atributos únicos, e exigir provas do seu poder. Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o coração, como em Meribá, como no dia de Massá, no deserto,  quando vossos pais me tentaram, pondo-me à prova, não obstante terem visto as minhas obras (Sl 95.7-9).

Para o Segundo Testamento a tentação se apresenta sob a forma de contratempos e perseguições pelas quais a fidelidade do homem é experimentada. Sucumbir a esta tentação é apostatar da fé em Cristo: A semente que caiu sobre a pedra são os que, ouvindo a palavra, a recebem com alegria; estes não tem raiz, creem apenas por algum tempo e, na hora da provação, se desviam (Lc 8,13). O perigo que as perseguições levassem os cristãos à apostasia era muito grande no primeiro século, por isso Cristo lhes é apresentado como modelo, pois mesmo diante da morte manteve-se fiel aos desígnios de Deus para a sua vida. Para os cristãos a provação deve ser motivo de alegria porque contribuem para o seu crescimento espiritual. São Paulo, porém, acrescenta uma salvaguarda importante quando diz que Deus nunca nos coloca numa provação maior do que a que podemos suportar. Diz também que o castigo para o homem perverso não é a provação, mas o de ser abandonado às suas próprias concupiscências.

Estes dois sentidos da tentação vivem em luta contínua, e a vida do cristão é basicamente travar essa incansável luta. Em última análise é a luta do Reino de Deus que Cristo veio instaurar e os exércitos de Satanás que tentam negá-lo, mesmo cientes de que a sua derrota já foi declaradamente pregada na cruz. Paulo enxergou essa divisão interna no homem bem antes da psicologia moderna. Essa compulsão para fazer o mal que não deseja em detrimento do bem que quer fazer. Essa luta é também um espelho da guerra cósmica em que as potestades do ar travam continuamente contra Deus. Jesus nos dá o antídoto definitivo contra estas forças na oração que ensinou aos seus discípulos. Essa é uma situação em que o cristão tem que estar ligado a Deus, suplicando que este não o deixe cair em tentação, principalmente a tentação vinda do mal.

Finalmente, nos é assegurado que uma vez que a tentação é vencida e a provação superada, a autêntica virtude da fé comprovada, brilha em nós, e nisso consiste inteiramente a nossa recompensa. Sob todos os aspectos a tentação é um alerta constante para a nossa vida cristã, algo que determina de que lado estamos na linha que separa o Reino de Deus do reino das trevas. Ela é nos vem de forma tão decisiva e é tão complexa que Bonhoeffer chega a dizer: A tentação é aquilo que tira todas as defesas do homem e usa armas dele contra ele mesmo

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