O que é SACRIFÍCIO?

Pietá, Romanino Girolamo
Sacrifício é mais uma das palavras que não encontra paralelo no Primeiro Testamento. Os termos usados por ele apontam para um objeto sagrado ou para um presente, que pode ser sacro ou profano. Existem adjetivos que qualificam o sacrifício pela sua crueza ou pelo modo como é oferecido, mas designava tanto uma oferenda a uma divindade como uma prova de submissão a uma autoridade, como um rei ou chefe de clã. Não era uma boa iniciativa comparecer diante de um superior para suplicar os seus favores sem um presente: Não aparecerás diante de mim de mãos vazias (Ex 23.15 e 34.20). Nos tempos antigos sacrifício também podia significar a oferta de si mesmo, o que geralmente era feito através da oferta de um animal que deveria ser morto e queimado.

Em Israel podia se oferecer praticamente tudo em sacrifício. Ouro, prata, comidas, animais, desde que não fossem impuros, ou mesmo a melhor parte destes. O mais cruel dos sacrifícios era a oferta de um povo ou de uma cidade no genocídio conhecido como anátema. Todos esses presentes oferecidos a Deus tinham mais a ver com o costume regional dos povos vizinhos do que propriamente com a sua herança religiosa. Não se pode deixar de lado o fato de que tanto a literatura sapiencial como a profética condenaram com veemência as práticas pagãs entre os judeus, posto que o Deus de Israel não necessitasse ser sustentado, o que era comum aos deuses pagãos. O salmo 50 expressa com clareza de detalhes esta grande diferença.

Contudo, o principal motivo do sacrifício era tentar desagravar um delito que teria sido cometido contra a autoridade ou contra a divindade. O chamado sacrifício expiatório ou expiação. Este assunto apresenta uma divergência entre os exegetas católicos e protestantes. Estes últimos entenderam que os profetas condenaram qualquer espécie de sacrifício a Deus, enquanto que os católicos concluíram que algumas ofertas ou atitudes poderiam servir como manifestações de fé agradáveis a ele. Como este é um blog ecumênico não tomarei partido nesta questão, a não ser que seja desafiado a fazê-lo. O judaísmo entendeu que certos sacrifícios eram obrigatórios, dentre eles o corbã e a esmola. Deste modo o sacrifício perdeu o seu caráter de oferta voluntária e expiatória para se tornar um preceito legal. A destruição do templo em 586 a.C. poria fim ao sacrifício de modo geral. Sem culto, sem sacrifício.

Para Jesus a oferta ao templo tinha significado especial, mas descartou todos os sacrifícios impostos pela antiga aliança: Deus é Espírito e importa que seus adoradores o adorem em espírito e em verdade (Jo 4.24). Mas não descartou a ideia básica do sacrifício expiatório, tanto que apresentou o sacrifício de si mesmo como resgate pela humanidade. Na verdade a palavra διάσωση significa o preço que deveria ser pago pela libertação de um escravo, prisioneiro de guerra ou a alguém que teria o direito de exigir alguma coisa. A morte de Jesus é um sacrifício expiatório em sua plenitude, posto que ele deu a sua vida em resgate de muitos. Ele é o servo sofredor de Isaías, o que através de suas feridas cura os males da humanidade.

Paulo acentua que através do seu corpo sacrificado e do seu sangue derramado, Deus instituiu uma nova aliança. Por meio deste sacrifício nossos pecados foram apagados e fomos reconciliados com Deus. O escritor da Carta aos Hebreus afirma que o sacrifício de Cristo é infinitamente superior a todos os sacrifícios da antiga aliança. Num sentido mais abrangente, o sacrifício de Cristo indica que todo cristão está morto para o pecado, e que ofereceu o seu próprio corpo a Deus como oferta viva, santa e agradável expressa pelo culto racional. Um culto que condiz com a natureza racional do homem e espiritual de Deus. Os cristãos devem se tornar em um novo templo, o templo que faz as ofertas mais agradáveis a Deus.

João, porém, radicaliza o sacrifício de Cristo opondo-se a todos os outros evangelistas. João chama Cristo de Cordeiro Pascal, aquele que era imolado por ocasião da Páscoa para expiar os pecados de todo israel. Os sinóticos afirmam ter Jesus comido a ceia pascal na sexta feira, mas para João, Jesus morrera um dia antes, exatamente na hora em que no templo o cordeiro pascal estava sendo imolado. Jesus não se apresentou diante de Deus de mãos vazias, mas tendo nas mãos o seu próprio sangue.

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