O que é PERDÃO?

Cristo e a adúltera, Jacopo  Robusti (Tintoretto)
Como já foi dito anteriormente neste blog, o pecador é um devedor a quem Deus perdoa a dívida. E é justamente em meio à transgressão da Aliança que Deus se revela um Deus de perdão. Humana e juridicamente o perdão não se justifica, mas o coração de Deus não é como o coração do homem. Ele não quer a destruição do pecador, mas a sua conversão. Por mais que queiramos que este perdão circule apenas entre grupos específicos, o perdão de Deus é universal, isso é o que Jonas descobre a duras penas na saga contada pelo seu livro.

Ainda que a incondicionalidade desse perdão fosse incansavelmente propagada, a tradição profética insiste em condicioná-lo a uma mudança radical de atitude. João Batista pregava que a condição única do perdão era o batismo na água, e que este ainda era apenas um sinal de um batismo mais eficaz, pois este seria com fogo. Esta sua firmeza de opinião o fez duvidar da messianidade de Jesus, pois este perdoava indistintamente pecadores e publicanos, chegando a perguntar-lhe se deveria esperar por outro Messias. Jesus o responde com as provas mais irrefutáveis de perdão de Deus: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres lhes é anunciado o evangelho. O perdão de Jesus não estava declaradamente implícito nas curas que fazia. Estas tão somente eram um sinal de que o perdão já havia anteriormente acontecido. Nem todos os que foram perdoados foram curados, e nem todos os que buscavam seu perdão sofriam de um mal aparente.

Cristo coroa o seu ministério alcançando para os pecadores o perdão de seu Pai. Ele derrama o seu próprio sangue pela remissão destes. E é através desse sacrifício que o perdão se torna gratuito para nós. E esse é o maior poder que concedeu à igreja que perpetuaria a sua obra. O poder de ser testemunha deste perdão incondicional. Paulo disse a Timóteo: Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. Se um homicida perseguidor do evangelho pôde alcançar esse perdão gratuito no limite máximo da sua ira, quem mais poderia ficar fora dele?

O perdão possui características únicas. No perdão Deus rasga o escrito da dívida para que absolutamente ninguém, nem mesmo o próprio Deus, possa mais tarde apresentar qualquer prova das nossas dívidas já perdoadas, ou qualquer indício de que elas um dia aconteceram de fato. Porém, duas coisas podem torná-lo ineficaz. A nossa falta de fé na providência divina, e a nossa não aceitação da sua gratuidade. Quando imaginamos poder pagar de alguma forma pelo nosso perdão estamos tentando invalidar na nossa vida o que Cristo fez por nós na cruz. Quando achamos que o braço de Deus é tão curto que não pode nos alcançar no fundo do inferno que voluntariamente nos metemos, estamos subestimando a sua graça, pois Deus, na sua infinita bondade, pode perdoar até mesmo aqueles que não perdoam.

Jesus apresenta Deus como modelo de misericórdia. Se ele pode perdoar a quem lhe deve muito, qual é o motivo de não fazermos o mesmo com quem nos deve tão pouco? O perdão não exige condições, mas ele é a condição essencial para uma vida nova. Se quisermos nos livrar da irreversibilidade do nosso passado, que constantemente nos assombra, devemos fazer o perdão fluir através de nós. Como bem disse o cantor Fagner na sua composição chamada Revelação, que tão propriamente se aplica ao sentido mais verdadeiro do perdão quando é por nós retido:
Um dia vestido
De saudade viva
Faz ressuscitar
Casas mal vividas
Camas repartidas
Faz se revelar
Quando a gente tenta
De toda maneira
Dele se guardar
Sentimento ilhado
Morto, amordaçado
Volta a incomodar

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