O que é ANJO?

Universo gnóstico, Nicolas Flammarion (1842-1925)
As duas traduções do Primeiro Testamento tem definições próprias do significado da palavra anjo. Enquanto que a Septuaginta traduz essa palavra simplesmente por mensageiro ou enviado, indicando apenas a sua função e não fazendo qualquer referência à sua origem, natureza ou caráter moral, a Vulgata faz distinção entre um mensageiro homem e um enviado de Deus. Isso tem mais a ver com a tendência teológica do período em que o texto hebraico foi traduzido do que propriamente com o seu contexto original. No entanto, o significado desta palavra ganhou sentidos específicos para cada fase da história dos hebreus.

No princípio, antes da realeza, todos os anjos eram anjos de Deus, criados por ele e considerados como sendo a sua própria manifestação. A partir da realeza judaica eles adquirem existência própria e agem como antecessores da sua manifestação. Juntamente com a concepção da universalidade do poder de Deus veio também a ideia de uma assembleia celestial, o chamado Exército dos Céus (IRs 22.19), Filhos de Deus (Job 1.6) ou Os Santos (Job 5.1) são figuras independentes que agem a serviço dele, mas com acentuada autonomia. Desta concepção ficam de fora os Querubins e os Serafins, porque estes estão permanentemente na presença de Deus, com a função de servi-lo e adorá-lo.

Durante e após o cativeiro babilônico a autonomia dos anjos cresceu exponencialmente, e muitos deles passaram a ser adorados. Conforme a concepção da transcendência de Deus ia se formando, aumentava na mesma proporção a ideia de um Criador cada vez mais distante da criatura, e foi assim que os anjos assumiram o papel de intermediadores entre Deus e os homens. As revelações não vinham mais diretamente de Deus a seus profetas, mas através dos anjos intérpretes. Eles passaram a ter nomes próprios, Miguel, Gabriel, Rafael, que indicavam as funções específicas. É neste contexto que a personalidade de Satanás se transforma. Aquele que antes tinha lugar de destaque na assembleia celestial tornou-se inimigo declarado de Deus e o maior obstáculo à execução do seu plano de salvação. Uma evidência clara da deificação dos anjos está contida no Livro de Tobias capítulo 3, em que o opositor direto de Satanás não é Deus, e sim o anjo Rafael. Por conta dessa idolatria já se faz notar na literatura pós exílica uma teologia contrária que condena radicalmente esse endeusamento dos anjos. Em Job4.18 lemos: Eis que Deus não confia nos seus servos e aos seus anjos atribui imperfeições.

No Segundo Testamento a concepção do que é um anjo não muda muito, contudo, eles aparecem no nascimento de Jesus, são misteriosamente ausentes durante todo o seu ministério, para ressurgirem imediatamente após a sua morte e ressurreição. As cartas paulinas também mencionam funções específicas para os anjos, mas não os relacionam a Deus, e sim ao mundo adverso a ele. Em Efésios 2.2 e 6.12 são chamados de espíritos maus que habitam as regiões celestes. Em Colossenses 2, Paulo declara que Cristo desarmou, venceu e humilhou estas forças, fazendo-as desfilar derrotadas em cortejo vitorioso. Deste modo Paulo pede aos fiéis em Cristo que não se deixem levar por culto aos anjos, e nem pensem que estas forças ou divindades astrais tem poder sobre a sorte dos homens, porque Cristo, e somente Cristo, possui a plenitude da divindade.

No Apocalipse a palavra é encontrada setenta e duas vezes com uma grande multiplicidade de significados e funções. Aparecem como participantes da liturgia, novamente na assembleia de Deus, como servos de comunicação e revelação e como executores de ordens diretas. Mas ainda assim este livro desaprova a sua veneração.

As teologias docetista e gnóstica pregavam um Cristo no mesmo patamar ou mesmo num patamar inferior ao dos anjos. Os escritores neotestamentários imediatamente revidaram a esta heresia, e o seu melhor argumento encontra-se em Hebreus 1, que diz: Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, pois a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei Pai, e ele me será Filho? Tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles.

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