O que é GLÓRIA?

Sarça ardente, afresco na Catedral S. Isaac, Russia
A palavra glória, no hebraico kãbôd, vem da raiz KBD e significa aquilo que dá peso, que faz ser importante e que confere estima. Deus é a glória de Israel, a floresta de cedros, a glória do Líbano, e o Nilo é a glória do Egito. Em todos esses casos a palavra glória significava aquilo que reclama do homem o respeito devido. No entanto, a glória de Deus além da relação íntima que tem com o seu poder visível, também é o reflexo da sua santidade, para a qual o homem não pode olhar diretamente, devido ao seu inominável brilho. No Primeiro Testamento as manifestações da glória de Deus são geralmente fenômenos luminares independentes e maiores que o sol. 

No deserto, a glória de Deus aparece como uma coluna de fogo que ilumina a noite, e como uma nuvem que bloqueia o sol durante o dia. No Sinai, numa nuvem de resplandecência contagiosa. Quando a glória de Deus estava no Tabernáculo, não deixava espaço para mais ninguém: Moisés não podia entrar na tenda da congregação, porque a nuvem permanecia sobre ela, e a glória do Senhor enchia o Tabernáculo (Ex 40.35). Embora que pareça que isso dá à glória de Deus limitações quanto ao seu comprimento, largura e profundidade, as suas simples manifestações nos asseguram que ela vem para extrapolar todas estas dimensões, pois elas enchem também os céus com as luzes e sons dos trovões e a devastação dos vendavais. Se nos cega o sol ardente, quando visto em seu fulgor, quem contemplará aquele que do sol é Criador? Dizia um hino antigo.

Contudo, nada disso tem lugar diante da manifestação da glória de Deus na criação e no amor que tem para com o seu povo, pois diferentemente da sua Palavra atemporal, que na boca dos profetas tem por finalidade a exortação e a instrução, a glória é a confirmação da presença momentânea do seu Espírito. Daí a importância da profecia superar a da glória, pois a primeira, uma vez anunciada, não reconhece limites de tempo e espaço, ao passo que a glória é sempre pontual e circunstancial. O pecado, porém, é sempre um atentado a ambas, pois a santidade de Deus está igualmente presente tanto na sua glória, quanto na sua Palavra.

A expressão “dar glórias a Deus” não evoca em nós senão o reconhecimento dessa glória que já é sua, pois ela possui um caráter único de propriedade. Da mesma forma que ela não pode ser dada a ninguém, ninguém pode dá-la a Deus. Ela é exclusivamente sua, e somente quem não a conhece ou despreza não encontra motivos para temê-la, pois até mesmo os demônios creem e tremem (Tg 2.19)

 No Segundo Testamento encontramos estas mesmas concepções. No grego kãbôd é traduzido por doxa, que no contexto profano significa opinião ou tese filosófica, por isso o gnosticismo a usava como algo mágico que confere conhecimento. A igreja primitiva compôs diversas doxologias, em que poder salvífico de Deus era exaltado juntamente com sua santidade. Apenas uma visão tênue desta glória era, para a igreja perseguida, o prêmio supremo pela sua fidelidade. Estevão quando estava sendo apedrejado viu Cristo na glória de Deus.

A glória aqui também adquire um caráter escatológico que não está presente nos livros do Primeiro Testamento. A teologia neotestamentária é prodigiosa em afirmar que a glória conhecida até então é apenas um reflexo do que se verá na plenitude do Reino. Expressões como: “todo olho verá” e "de uma extremidade do céu até a outra” corroboram para conclusão de que a glória irá revelar-se plenamente apenas em um tempo além do nosso tempo, porque assim como o sol brilha no nosso tempo, a glória irá brilhar no Reino de Deus. Mas ainda assim o cristão é chamado a manifestar essa glória que Moisés refletiu no Sinai. Paulo nos exorta dizendo: Portanto, todos nós, com o rosto descoberto, refletimos a glória que vem do Senhor. Essa glória vai ficando cada vez mais brilhante e vai nos tornando cada vez mais parecidos com o Senhor, que é o Espírito (IICo 3,18).

Um velho professor do seminário fez um trocadilho que facilitou em muito a nossa concepção da precariedade da manifestação da glória de Deus. Além de dizer que era aquilo que sentíamos imediatamente após uma teofania, ele a comparava com um perfume no elevador. Por mais que nos impressionemos com ela, e é sempre bom que ela nos cause espanto, a glória de Deus, dizia ele, é aquilo que fica depois que Deus a kãbôd passar.

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