Nós e Nossas Orações

São Bruno em oração, Domingos Sequeira (1768-837)
Tradução, feita por João Wesley Dornellas, em maio de 2005, do capítulo inicial do livro “The Plain Man´s Book of Prayers” (“Orações para o Homem Comum”) de William Barclay.

Não deveria ser difícil orar já que a oração é a atividade mais normal do mundo. William James, o grande filósofo americano, disse: “Muitas razões têm sido apresentadas do porquê não se deveria orar e outras tantas para expor os motivos porque de fato deveríamos fazê-lo. A razão de orarmos é simplesmente porque não podemos evitar orar”. Um dos fatos mais significativos da condição humana consiste em que não se tem podido achar uma tribo, por mais primitiva que fosse, que não orasse a seus deuses. A oração não é uma arte adquirida; é um instinto. Nos momentos em que a vida se torna mais e mais complicada, quando chegamos aos limites de nossas forças, quando somos tentados muito além do que podemos resistir, quando nossas mentes se encontram atribuladas e nossos corações desfeitos, então oramos.

Se é assim, bem poderíamos perguntar: por que então precisamos de uma motivação para orar? Se se trata de algo tão natural, por que nenhum ser humano pode orar por si só? A técnica não é uma palavra que conta com associações elevadas e sublimes mas, apesar disto, existe uma técnica para cada coisa. Não existe no mundo nada tão comum como a respiração mas existe uma técnica para respirar; há uma maneira correta e outra incorreta de fazê-lo e, assim, nossa saúde dependerá de qual delas nos utilizamos. Existem poucas ações tão naturais como a de caminhar e, contudo, existe uma técnica para fazê-lo. Pode-se caminhar correta ou incorretamente e, faça-mo-lo de uma ou outra maneira, o certo é que haverá entre ambas muita diferença.

Precisamos aprender a usar cada coisa. Pode acontecer que um homem possua algo de grande valor e, não obstante, que fracasse ao tratar de extrair o maior proveito possível por não proceder corretamente. O homem tem que aprender a usar uma máquina de escrever ou uma cafeteira elétrica; deve aprender a afinar um violino ou a regular uma televisão; tem que aprender a dirigir um automóvel e a cozinhar alimentos – e a fazer tudo isto de modo que obtenha deles o máximo proveito.

As ações mais simples e comuns requerem uma técnica e o homem deve aprender como fazer uso de seus bens mais apreciados. Com a oração ocorre exatamente igual. Existem muitas pessoas que aprenderam em sua infância a orar de uma certa maneira. Pouco a pouco, porém, à medida que os anos passaram, abandonaram o hábito de orar. Se elas analisaram a questão e foram honestas, provavelmente diriam que deixaram de orar porque não acharam utilidade na oração. Se é assim, a razão é que não oraram de maneira correta. Nunca aprenderam nem ninguém lhes ensinou a técnica da oração. Possuíam um dom muito valioso mas não souberam como utilizá-lo.

Vejamos então algumas das leis da oração.
Toda prece parte do fato de que Deus está muito mais disposto a escutar do que nós estamos para falar com Ele. E muito mais disposto a dar do que nós estamos para pedir. Quando oramos, não estamos nos dirigindo a um Deus rancoroso e mal disposto. Deus, como percebeu Paulo, tem dado provas e provas incontestáveis de sua generosidade. “Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por nós, como não nos dará também com ele todas as coisas ?” (Rm 8:32). Há duas parábolas que Jesus ensinou aos homens com respeito à oração e a errônea interpretação das mesmas tem causado infinito mal. A primeira é a chamada Parábola do Amigo Inoportuno (Lc 11:5-8). Ela narra como um viajante noturno chegou à casa de um homem. Era tão tarde que este não tinha comida para oferecer-lhe e, no Oriente, a hospitalidade é um dever sagrado. Assim foi que o anfitrião foi à casa de seu vizinho, quando já era meia-noite, e bateu à sua porta para pedir-lhe emprestado um pouco de pão. O vizinho já se achava deitado e, a princípio, não quis levantar-se. O homem que precisava do pão, no entanto, continuou batendo à porta: chamou, sem envergonhar-se de sua insistência; finalmente, o vizinho que estava deitado se viu obrigado a levantar-se e dar-lhe o que necessitava.

A segunda parábola é conhecida como a do Juiz Iníquo (Lc l8:3-7). Ela conta como em certa cidade havia uma viúva que pedia justiça. Ninguém havia jamais conseguido dele uma sentença favorável a não ser através de generoso suborno, que a viúva não estava em condições de dar porque carecia de dinheiro. Ela, porém, possuía uma coisa muito importante, a persistência, e continuou insistindo com ele até que o juiz injusto lhe deu o que pedia, cansado de sua insistência. Com frequência a gente interpreta ambas as parábolas como que, se persistimos na oração, obteremos finalmente o que desejamos. Se batermos o suficiente à porta de Deus, se O cansamos com nossa persistência, se desencadearmos um verdadeiro bombardeio de orações, Deus finalmente sucumbirá e nos concederá o que pedimos. Isto não é absolutamente o que ensinam as duas parábolas. A palavra parábola significa literalmente algo unido a outra coisa. Ela provém dos vocábulos gregos para, que significa junto , e ballein, arrojar. Quando juntamos as duas coisas, o fazemos com o fim de compará-las; o ponto de comparação, contudo, pode estar na similitude ou no contraste. Nessas parábolas não se compara Deus com um tosco e mal humorado vizinho ou com um juiz injusto e obstinado; nelas se contrasta Deus com eles. Jesus quis dizer: se um vizinho rude e mal humorado dá afinal a um amigo persistente o pão de que necessita, e se um juiz injusto e teimoso dará finalmente a uma viúva a justiça que esta demanda, quanto mais Deus, que é um pai amoroso, nos dará aquilo de que necessitamos. Isto é o que exatamente o que Jesus quis dizer.

Ele nos exorta a pedir para que recebamos, a buscar para que achemos e a bater para que se nos abra. Se nós, sendo maus, sabemos dar boas coisas a nossos filhos, quanto mais nos dará nosso Pai celestial aquilo de que necessitamos para viver ? (Lc 11.13; Mt 7.11). Aqui está a grande e preciosa verdade da qual depende toda oração. Deus não é alguém de quem se há de obter dons e favores contra sua vontade, nem alguém cujas defesas se há que derribar e cuja resistência devamos minar ou socavar. Deus está muito mais disposto a dar do que nós mesmos estamos para pedir.
Vem, minha alma, apresenta tua petição;
Jesus quer responder sua oração;
Ele mesmo te mandou orar,
por isto, Ele não te dirá: não.
Te diriges a um Rei;
traze contigo grandes pedidos
pois sua graça e poder são tamanhos
que ninguém jamais poderá pedir-lhe demasiado. (continua)

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