Nós e Nossas Orações II

Oração no Jardim das Oliveiras, Andreas Mantegna
Tradução, feita por João Wesley Dornellas, em maio de 2005, do capítulo inicial do livro “The Plain Man´s Book of Prayers” (“Orações para o Homem Comum”).

Não podemos, no entanto, deixar a questão neste ponto pois é justamente por deixá-la aqui que muitas pessoas têm perdido o hábito de orar. Temos dito – e se trata de uma verdade fundamental da oração – que Deus é um pai amoroso que está mais disposto a dar do que nós mesmos estamos para pedir. Acaso isto significa que, para receber, temos apenas que pedir a Deus e que Ele nos dará tudo aquilo que pedimos? Na realidade, não é assim e é aqui que devemos assumir e compreender as leis da oração. A primeira lei exige que sejamos honestos ao orar. Lutero disse que a primeira lei da oração é: “não mintas a Deus”. A grande tentação que temos ao orar é a de sermos convencionais, isto é, orar numa linguagem piedosa por aquilo pelo qual sabemos que devemos orar. É certo, porém, que em algumas ocasiões, ninguém se sentiria mais surpreendido do que nós mesmos ao ver que nossa oração foi ouvida. Podemos orar para renunciar a algum hábito – sem a menor intenção de abandoná-lo. Podemos orar por alguma virtude ou qualidade sem o mínimo desejo de possuí-la.

Podemos orar para nos convertermos em certo tipo de pessoas quando, de fato, a última coisa que realmente queremos é mudar pois, na realidade, nos sentimos muito bem com aquilo que somos. O perigo da oração está em convertê-la em uma piedosa e vã série de trivialidades. Consiste em pedir de maneira muito correta “as coisas boas” sem nenhum desejo de recebê-las. Isto é mentir a Deus. Não se deve orar por aquilo que não desejamos de todo o nosso coração. Se há algo que sabemos que deveríamos querer, mas não desejamos de verdade, nosso primeiro passo deve ser o de não orar por ele – isto seria desonesto. Devemos, sim, confessar que o santo desejo que deveria existir em nosso coração não está ali, e pedir a Deus que o seu Espírito o ponha nele. Nossas orações deveriam estar imbuídas de uma constrangida honradez para conosco mesmos, a fim de que possamos ser honestos com Deus, pois Ele conhece os segredos do nosso coração e sabe de sobra quando estamos pedindo convencionalmente bênçãos que não temos o desejo genuíno de receber.

Assim, da primeira sucede de modo natural a segunda lei da oração: devemos ser bem concretos ao orar. Não basta pedir a Deus o perdão porque somos vis e miseráveis pecadores. Isto é demasiado fácil e muito cômodo. Devemos relacionar e confessar a Deus nossos pecados concretos. Tampouco basta agradecer de maneira vaga a Deus por todos os seus dons. Temos que enumerar especificamente os dons pelos quais estamos dando graças. Não basta pedir de modo nebuloso que Deus nos faça bons. Temos que pedir pelas coisas concretas que nos faltam e das quais temos necessidade. Nisto está a grande dificuldade da oração. Não pode haver uma oração genuína sem um autoexame. O autoexame é, no entanto, difícil, penoso e, sobretudo, vergonhoso e humilhante. Muitos de nós preferimos fugir a nos enfrentarmos a nós mesmos em autoexame. Uma das grandes razões do por quê nossas orações não são o que deveriam ser se encontra no fato de que muito poucas pessoas assumem a severa disciplina do autoexame perante Deus. Autoexame e oração tem que seguir juntos.

Nem aqui, no entanto, podemos parar. Suponhamos que temos uma fé perfeita em Deus como um pai amoroso e generoso; que somos honestos ao orar e que temos conseguido a disciplina do autoexame e a consequente condição concreta na oração : receberemos então tudo o que pedirmos ? Existem ainda outras leis que regem a oração e que sempre devemos ter presentes. Temos que recordar que nos achamos enquadrados dentro do padrão da vida. Não somos unidades exclusivas, soltas, ilhadas mas formamos parte de uma irmandade, sociedade ou comunidade, queiramos nós ou não. Qualquer coisa que façamos necessariamente afetará a outras pessoas. Por isto, estamos obrigados a compreender que Deus não pode conceder uma petição egoísta. Bem pode ocorrer que, se nossa prece é atendida, alguém sofra por isto. Pode suceder que o conceder-nos o que desejamos prive a outro do que necessita. Com frequência oramos como se não existisse ninguém além de nós mesmos, como se fôssemos o centro do universo, como se a vida mesma e tudo que há nela devesse se organizar e ajustar-se ao nosso especial desejo. Nenhuma oração que esquece os demais jamais poderá ter a resposta que esperamos. A humanidade é a família de Deus e nessa família não pode haver crianças mimadas que conseguem tudo aquilo que desejam.

É ainda mais importante recordar que Deus sempre sabe o que mais nos convém. Com frequência pedimos, em nossa ignorância, coisas que, se nos forem concedidas, não redundariam em nosso próprio bem. Não poderia ser de outro modo. Pelo fato de sermos humanos não podemos ver além do momento presente. Não sabemos o que ocorrerá dentro de uma semana, um dia, uma hora ou até num instante. Somos como as pessoas que entram no cinema na metade de um filme: não temos visto o princípio nem sabemos qual será o final e, assim, o que sucede na tela, é um mistério para nós. Só Deus observa o tempo em sua totalidade e, por isto, só Ele sabe o que nos convém. Por esta mesma razão é que Deus responde com frequência a nossas preces simplesmente não nos dando aquilo que pedimos. Não há nada de misterioso nisto. É um princípio que nós mesmos costumamos observar com nossos próprios filhos. O menino pede algo, nós o amamos e não temos outro desejo do que a sua felicidade. Sabemos todavia que, ao conceder-lhe o que pede, não lhe faríamos um bem mas, muito ao contrário, porque poderia ser perigoso e causar-lhe dano. Assim ocorre conosco e Deus. Não precisamos chegar à velhice para poder olhar retrospectivamente a nossa vida e observar que, se algumas de nossas orações tivessem sido concedidas, nossa vida presente seria infinitamente pior do que é em realidade.

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