Nós e Nossas Orações IV

S. Francisco orando, Murillo (1618-1682)
O erro básico que muitas pessoas cometem com respeito à oração consiste em que quase instintivamente a consideram um meio para fugir de uma determinada situação. A oração não é um meio de evasão mas de conquista. As leis vitais não se deterão pela oração mas, através dela, recebemos as forças e a confiança para vencer qualquer obstáculo. Agora temos que abandonar estas importantes leis e princípios da oração para pensar nos seus métodos. Existem cinco grandes classes de orações. Existe a invocação. Invocação significa chamado ou convite. Devemos ter claro, porém, o que entendemos por invocação. Não significa que convidamos a Deus para estar presente em nossas orações posto que Ele está em todas as partes e sempre presente. Pelo contrário, na invocação pedimos a Deus que nos ajude a compreender que Ele sempre está conosco e que nos faça conscientes de sua presença. Deus não é um estranho que se encontra distante e a quem se há que convidar e convencer para que se reúna conosco ; Ele está “mais perto de nós do que a nossa própria respiração, nossas mãos e nossos pés”, como dissera Tennyson. Há um dito de Jesus que não aparece nos Evangelhos mas que é muito formoso : “onde quer que haja dois, Deus está com eles, e onde quer que haja um só, digo que eu estou com ele. Levanta a pedra e me encontrarás, corta a madeira e ali estarei eu”. Na invocação nós recordamos a nós mesmos que Deus está aqui.

Existe a confissão. Na confissão contamos a Deus os nossos pecados e erros, lhe dizemos que estamos verdadeiramente doloridos por eles e lhe pedimos o perdão. Na confissão, duas coisas têm que andar juntas. Trata-se da imprescindível busca do auto-exame e uma firme honestidade para conosco mesmos. Existe certa debilidade que trata de ocultar as coisas, não só a nossos semelhantes mas, inclusive, a nós mesmos e a Deus. Ele, porém, esquadrinha o coração dos homens e conhece de sobra nossos pensamentos; para Ele nada está oculto ou encoberto. Pode ser que perguntemos : “Se Deus já sabe tudo, por que tenho que lhe contar ? Se Deus me ama e, sobretudo, quer perdoar-me, por que tenho que pedir-lhe perdão ?” Temos que pensar em termos humanos pois são os únicos que conhecemos. Quando uma criança faz algo mal, o pai sabe e, é claro, quer perdoar-lhe. O pai sabe também que o filho está arrependido do que fez. Em que pese tudo isto, porém, existirá uma barreira invisível entre o pai e o filho até que este último venha por sua própria vontade e diga: “Perdoa-me, eu errei”. Então a barreira desaparece e o amor novamente resplandece à luz do sol. Assim ocorre entre nós e Deus. “Se confessamos nossos pecados, Ele é fiel e justo para perdoar nossos pecados e nos purificar de toda a injustiça “ (I Jo 1:9).

Ainda nos resta adicionar algo. A confissão sem emenda é algo truncado. Devemos fazer uso do amor perdoador de Deus, não como uma cômoda desculpa para o pecado mas como um iniludível desafio e obrigação ao bem. O menino diz : “Perdoa-me; tratarei de não voltar a fazê-lo”. Nós devemos fazer o mesmo. Existe a Ação de Graças. A ação de graças é o produto da gratidão lógica do coração. Há três classes de ação de graças. Existe a que damos por Jesus Cristo, o maior e melhor dom de Deus aos homens. Existe a ação de graças por todos os meios de graça, por todas as grandes alegrias e maravilhas da vida e, ainda, por todos os dons que Deus nos tem dado e que nos ajudam a enfrentar os grandes momentos de nossa vida. Existe porém uma terceira classe de ações de graça. Um dos grandes perigos que enfrentamos na vida consiste em considerar as pessoas e as coisas, que se acham inseridas em nossa própria estrutura vital, unicamente como meros elementos da paisagem e simples partes do quadro essencial da vida. Há dons que recebemos com regularidade a cada dia e dos quais esquecemos sua condição de bênçãos. Temos que ter gratidão por eles.

Quando pensamos no que seria a nossa vida sem as pessoas e objetos que nos rodeiam a cada dia, chegaremos à conclusão de que o dia inteiro não seria suficiente para dar graças a Deus por eles. Existe a petição. A petição é aquela parte da oração na qual pedimos a Deus as coisas de que necessitamos para viver. Ela nasce o sentido da nossa própria insuficiência e da compreensão da plena suficiência de Deus. Aqui, outra vez, se impõe o autoexame pois o homem tem que tomar consciência de sua necessidade de ajuda e de cura antes que possa pedir por elas. É na petição que a oração se converte na prova máxima e na verdadeira pedra de toque. Nela propomos a Deus as nossas esperanças, nossos sonhos e desejos. Toda vez que algo é posto ante a presença de Deus, seu verdadeiro caráter se põe em evidência. Nas ocasiões em que trazemos a Deus alguma inquietude é comprovamos que ela tem pouca importância. Costuma ocorrer, quando expomos a Deus algo que nos preocupa ou no qual havíamos posto todo o nosso coração, que percebemos o seu justo valor e observamos, então, que não se tratava de coisa tão importante. Às vezes, quando apresentamos algo a Deus, compreendemos quão incorreto era pedir por aquilo e o mal que havia em desejá-lo. Uma das primeiras perguntas que devemos formular-nos sobre qualquer coisa é: “Posso pedir por ela?” Com a resposta afirmativa, quando levamos uma inquietude à presença de Deus, comprovamos que, na verdade, trata-se de algo ao qual podemos dedicar nossos esforços e a nossa vida.

Na petição nós reunimos as nossas necessidades vitais e as apresentamos diante de Deus. Também podemos perguntar frente a isto: se Deus em sua sabedoria já sabe o que mais me convém, e em seu amor está mais disposto a dar do que eu estou para pedir, por que tenho que pedir-lhe tudo? Por que não me limito a deixar que Deus me conceda? Novamente, devemos pensar em termos humanos. Podemos estabelecer o que é mais conveniente para uma criança, um jovem ou um outro ser querido. Podemos estar dispostos a lhes dar, até ao preço do sacrifício. Não podemos dar a não ser quando aceitem, só quando eles pedem, temos que esperar até que nos expressem o desejo de tê-lo. Assim ocorre com Deus. Uma de suas atitudes mais notáveis está em seu respeito pelos direitos da personalidade humana. Deus não nos impõe seus dons. Ele espera que lhe manifestemos nosso desejo de recebê-los. Por conseguinte, na petição nós não somente expressamos os nossos desejos mas principalmente lhe pedimos que nos conceda exatamente o que Ele quer e o que julgue mais conveniente para nós.

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