Só pode haver um

Estou muito admirado com vocês, pois estão abandonando tão depressa aquele que os chamou por meio da graça de Cristo e estão aceitando outro evangelho. Na verdade não existe outro evangelho, porém eu falo assim porque há algumas pessoas que estão perturbando vocês, querendo mudar o evangelho de Cristo. Mas, se alguém, mesmo que sejamos nós ou um anjo do céu, anunciar a vocês um evangelho diferente daquele que temos anunciado, que seja amaldiçoado! Gálatas 1.6-8
Paulo de Tarso, Rembrandt
“Pessoas querendo mudar o evangelho”, esta deve ser a frase mais repetida pela maioria dos cristãos nos julgamento que fazem sobre usos, costumes e doutrinas de outra igreja diferente da sua. Afinal, o evangelho está nesses mesmos itens tão diversificado, isto para não associar uma palavra ruim a ele, que ficou complicado para alguém que não o conhece ou o conheceu recentemente dizer com convicção que igreja é realmente evangélica nos dias de hoje. Parece-me, pela veemência de Paulo no texto acima, que isso não é propriamente uma novidade do nosso tempo. Lá pelos anos 50 de nossa era a igreja já se comportava assim.

Na raiz da palavra, evangelho era um tipo de gorjeta que era dada ao mensageiro quando este trazia uma boa notícia. A rigor, deveria ser algo impactante para um e gratificante para o outro. Se o nosso mundo fosse descomplicado, isto seria simples assim: alguém anunciaria a boa notícia da salvação de Deus para alguém que ainda não a conhecia, e este último mostrava a sua gratidão retribuindo de alguma forma o ônus do anúncio, que no sistema de dominação arquitetado pelo Império Romano poderia ser, como foi em muitos casos, a vida do mensageiro. Qualquer alteração na mensagem que não confrontasse com risco de vida a máquina do poder opressor não poderia ser chamada de evangelho. Primeiramente porque esta não seria uma novidade libertadora, e depois, ela não seria fiel às suas origens, porque aqueles que anunciaram o verdadeiro evangelho de Cristo foram perseguidos e mortos tão somente por causa dela. Então temos um dado novo a ser acrescentado à proposta de atuação inicial do mensageiro: quem anuncia o evangelho sofre ameaças do poder opressor. Isto é evidente posto que, quando se anuncia a mensagem libertadora de Cristo e uma pessoa que esta escravizada se vê livre ao aceitá-la, o mundo adverso a esta mensagem perde força, e para o mundo isso não é nada bom. Ou seja, temos aqui mais um dado novo: quem anuncia o verdadeiro evangelho contraria de forma radical a situação vigente.

Uma coisa, porém, deve ficar clara: o evangelho não contraria apenas por contrariar. De forma alguma ele é uma maneira radicalizada de contestação. Isso acontece pela aversão que o mundo tem às mudanças que o evangelho propõe. Quando o anúncio do evangelho encontra resposta na mudança de mente das pessoas, uma cadeia de acontecimentos transtorna a situação estabelecida. João Wesley traduziu este estado de mudança da forma mais simples possível, quando disse: quem roubava, não rouba mais. Toda a máquina da roubalheira vai emperrar justamente naquele que fazia parte do processo e que agora não está disposto a seguir fazendo. Eu falei roubalheira? Desculpem-me, devia estar pensando em outro país.

Imaginem vocês se cada parlamentar que se diz evangélico emperrasse uma pequena parte desta imensa máquina. Bom, para início de conversa eles não seriam apoiados e nem aceitariam ajuda financeira dos seus atuais beneméritos de campanha, é claro. Alguns seriam mortos, outros execrados, e outros ainda teriam seus nomes apagados do cenário político através de injúrias e difamações. Pode ser ruim, mas este é o preço a ser pago para que o evangelho de Cristo seja pregado com a autoridade devida meio. Isto não ia nem requerer um passado ilibado ou uma vida pregressa limpa, requereria sim uma mudança de mente. Penso assim baseado no passado de homens e mulheres altamente suspeitos e cheios de falhas de caráter que transformaram a si e o mundo à sua volta a partir de uma conversão à mensagem do evangelho.

Aquele que roubava, agora não rouba mais. Tem que pagar pelos seus erros passados? Tem sim. Tem que tentar devolver o que roubou? Tem sim. Tem que tentar reparar o mal que cometeu às pessoas? Tem também. Mas tudo isso ainda é um preço muito pequeno diante do muito que precisou ser pago para que a mensagem do evangelho chegasse a ele, desde a sua origem, íntegra e fiel. Como se pode ver, o evangelho não pode mesmo ser mudado, nem mesmo pelos acréscimos que julgamos ser melhores. Quem o anuncia não tem autoridade para alterá-lo para melhor nem para pior. É justamente por isso que Paulo vai buscar na maldição, uma ameaça prática que era muito comum no passado, a maneira de advertir aqueles que o fizerem, mesmo porque estes não vivem a novidade do evangelho e ainda estão presos ao seu passado. É muito comum ouvir-se também que toda a maldição foi pregada na cruz junto com Jesus Cristo, mas esta foi a maldição dos que estão em Cristo, porque estes se fizeram novas criaturas pela mensagem do evangelho. Não roubam mais.

Nota: Interrompemos a sequência das postagens sobre a oração sob a promessa de que elas voltarão a seguir.

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