Pentecostes, o que foi e o que é III

Viagem de Moisés ao Egito, Pietro Perugino (1450-1523)
Antes da indesculpável interrupção falávamos das circunstâncias narradas em Atos 1 que nos dão conta do que aconteceu no Pentecostes.  Falávamos também da diversidade de credos e nacionalidades e da escolha de Deus em relação à escolha dos homens.

Mas depois disso o texto penetrou no que de mais intrincado houve neste contexto: Vossos filhos e filhas profetizarão. A Palavra huiós, que significa filho, era utilizada especificamente para identificar o filho homem mais velho, que seria o primogênito ou o herdeiro maior. No português nós não temos esta diferença, mas no inglês seria algo como son e children. Como se alguém dissesse: este é o meu filho, referindo-se ao mais velho, e estas são as minhas crianças, tratando deste modo os mais novos. Mas o Espírito de Deus não dá a menor importância para o grego, para o português e muito menos para o inglês. Deus derrama seu Espírito sobre todos os filhos, sejam eles de que sexo forem, indiferentemente da ordem em que tenham nascidos. Num tempo onde a esposa era sequer contada e filhas não passavam de moeda de troca, Deus vem dizer que derrama o seu Espírito sobre elas com intensidade igual, sem distinção e sem dar destaque ao fato. Para muita gente hoje esta escolha ainda é no mínimo estranha. Deus no Pentecostes não faz com que a mulher passe a ser aceita através de um decreto, de uma cerimônia na ONU, e nem cria um dia mundial em sua homenagem, como se isso fosse uma conquista da mulher depois de anos de batalha. Ele a aceita naturalmente, sem qualquer cerimônia inusitada, sem discurso ou explicação. Para Deus a mulher foi criada para ser e não para se tornar, ou para vir a ser. O Pentecostes faz isso sem mostrar espanto nem perplexidade. Quem lê um texto desse e acha um absurdo ser pastoreado por uma mulher, não entendeu nada do que o Pentecostes quis anunciar.

O texto diz também que os mais jovens terão visões. Aqui a criança passa a ser definitivamente incluída em qualquer processo em que o Espírito de Deus esteja no comando. A criança não faz parte, como costumamos dizer. Ela é naturalmente parte do processo. O Pentecostes não veio para valorizar criança alguma, para resgatar a sua importância e sim para dizer que o seu valor é inegável, indiscutível e intransferível. As professoras de Escola Dominical podem confirmar. Quando deixamos as crianças se pronunciarem na sua linguagem bíblica, quando as deixamos profetizarem, nós ouvimos e aprendemos cada coisa! Às vezes chegamos numa classe de crianças prontos e convictos de que vamos tosquiar as ovelhinhas. Vamos dar uma aula. Prontos para dar um sermão sobre a vida e sobre as maravilhas de Deus, e saímos de lá tosquiados, com uma única certeza: a de que temos muito ainda a aprender.

Uma menina de uns cinco anos estava fazendo um desenho. A mãe lhe perguntou: O que você está desenhando, minha filha? Deus. Disse a menina. Como você pode desenhar Deus se ninguém o viu, ninguém sabe como ele é? A menina segura de si concluiu: Daqui a cinco minutos vocês saberão. Que convicção tremenda! É aqui que eu pergunto: Quem somos nós para desafiar tão profundo conhecimento? Quem de nós tem a coragem de duvidar que o desenho daquela menina não fosse a expressão mais real do próprio Deus? Quem melhor para delinear a face de Deus do que eles que possuem o Reino do Céu? A segunda vez que eu vi Jesus bravo além das chicotadas que deu no templo foi quando mexeram com as suas crianças. Ah, ele ficou muito bravo e chegou a fazer ameaças seriíssimas: Se alguém fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, é melhor pegar uma pedra pesada, amarrá-la ao pescoço e atirar-se no fundo do mar. Isso aqui é muito sério. Depois do Pentecostes a criança não pode mais ser tratada com estrupício, como fazem muitos, ou como aborrecentes, como fala a maioria. Não podem mais ser subestimadas como antes. John Wesley dizia que Deus começa a sua obra no mundo pelas crianças.  

O Pentecostes que já colocado no mesmo barco nacionalidades, credos, mulheres e crianças passa a se dirigir agora aos mais velhos. Os vossos velhos sonharão. Aqui não tem nenhum convite, tem uma determinação. Não sei se vocês concordam, mas um dos primeiros sinais claros da velhice é quando a pessoa deixa de fazer planos, deixa de sonhar. O curioso é que Pentecostes não veio para fazer cumprir o mandamento de honrar pai e mãe. Eu tenho um amigo que diz que quem recebe o título de venerável, emérito, está recebendo uma homenagem póstuma em vida. Honrar pai e mãe dá a ideia de enclausuramento, de mumificação. Vamos aceitar o que ele diz, afinal de contas, ele é velho. Esta é a mais diabólica interpretação deste mandamento. Deus não pediu nada disso, e o Pentecostes vem para corrigir definitivamente este erro de interpretação. Ele vem inverter a ordem: a partir de agora, sonhar é coisa de velho. Não quis dizer que a criança e o jovem não possam sonhar também, mas para o idoso, sonhar é obrigação. Na minha igreja tem uma pastora de quase noventa anos, e não há um domingo sequer que, nas conversas antes do culto, ela não me conte um novo sonho.

Sonhar, mas não é sonhar barato não, e sonhar com o impossível, assim como Moisés que aos oitenta anos, viu seu povo escravizado pela maior potência da época e sonhou com a sua libertação. A Bíblia diz que Moisés saiu do palácio de Faraó e viu a dor do povo. Eu nuca estive lá, mas acredito que o Egito, principalmente o Egito daquela época, tinha coisa mais interessante para se ver do que a dor de um povo escravo. Se ver a dor já é difícil, sonhar com a liberdade então, nem pensar, mas Moisés sonhou com o impossível e já tinha mais de oitenta anos. No projeto do mundo novo de Deus, do novo céu e de uma nova terra, o idoso sonha, a criança descreve, a mulher aperfeiçoa e os homens colocam a mão na massa.

É inegável que estamos felizes porque a igreja nasceu a partir do Pentecostes. Claro que devemos nos alegrar porque abraçamos uma fé que teve a sua origem na transformação que começou nas pessoas. Mas não podemos reduzir o Pentecostes apenas a este aspecto. O Pentecostes é um derramamento sem limites, é uma escolha sem restrições. É uma eleição sem rejeição. Quem quiser falar em outras línguas, que fale. Quem quiser apenas ouvir a linguagem inteligível, que ouça. Desde que ambos respeitem o espaço de cada um. Mas reduzir o Pentecostes a meras atitudes, querer culpá-lo pelo sectarismo, associá-lo a grupos fechados e reuniões secretas, é jogar no ralo tudo o que Deus planejou desde a fundação dos séculos. Se continuarmos assim aí nós vamos realmente fazer com que o sol escureça e que a lua chore sangue. Nesta festa que celebramos é hora de anunciar ao mundo, aos povos do norte e do sul, aos do leste e os do oeste. Às mulheres, às crianças, aos idosos, e aos mais humildes que eles foram aceitos. Vocês são aceitos, nós somos aceitos. Embora não merecêssemos ser aceitos, mas fomos aceitos. Não por ser o que somos, cristãos, muçulmanos, espíritas etc. Não por qualquer coisa que tenhamos feito, mas pelo que, aquele que na cruz foi rejeitado, fez. É esta ideia da aceitação na rejeição, da aceitação que supera qualquer barreira de sexo, idade, raça posição social, esse derramamento sem medida que o Pentecostes veio anunciar. Pois somente quem já sentiu o gosto amargo da rejeição, pode ter a dimensão exata e dar o devido valor a aceitação irrestrita que o Pentecostes veio inaugurar.

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