Pão da vida – os decepcionados

Quem come a minha carne e bebe o meu sangue vive em mim, e eu vivo nele. Leia todo o capítulo 6 de João
O Milagre do Maná. Tintoretto
Talvez o momento crucial do ministério não tenha sido o confronto com os sacerdotes, escribas e fariseus. E é bem possível que não tenha sido também o confronto com a morte na cruz. Pela dramaticidade do tema, temos sérias razões para pensar que o embate decisivo do seu ministério tenha sido o confronto com os seus próprios discípulos. Não estamos falando dos discípulos ocasionais ou oportunos, como aqueles que foram rechaçados porque o seguiam por terem comido pão e saciado as suas necessidades. Falamos daqueles discípulos bem próximos, talvez muitos dos setenta que foram enviados em campanha. Falamos daqueles que viram Jesus fazer mais do que curar enfermos e multiplicar pães. Falamos daqueles que estavam divididos pelo entusiasmo do oba oba e o compromisso com um novo tempo. O texto sugerido acima assinala definitivamente o clima deste confronto. Esta é a hora de saber quem vai e quem fica, de saber quem está com ele cem por cento, e quem o acompanhará até as últimas consequências.

A proposta de Jesus de um pacto de sangue, logicamente que exigia sangue, e Jesus por mais de uma vez disse que estava pronto a verter o seu em favor deste novo pacto. Aqueles que se propuseram a fazer o pacto sinceramente, se comprometeriam também em verter o próprio sangue, caso fosse necessário. Esta aparente simples relação tem desdobramentos diversos. Em primeiro lugar, João não está precisamente descrevendo uma cena de um tempo presente para si. Está sim fazendo teologia após alguns anos do ocorrido, pelo menos uns bons sessenta anos. É bem provável que os discípulos de Jesus a quem João estava se dirigindo, conhecessem bem mais de perto as implicações deste pacto, uma vez que a perseguição aos que se anunciavam ser de Cristo era cabal. Aos da época anterior estava sendo apresentado apenas uma visão futurista do que poderia vir a acontecer. Pode ser também que estas palavras estivessem tentando motivar a fé de quem já estava sangrando por amor a Cristo. Mas o que temos de fato é que tanto os discípulos presentes com Jesus, como aqueles a quem João escrevia estavam diante da decisão mais difícil de suas vidas.

De acordo com a decisão que cada um tomou podemos identificar os vários grupos que se formaram a partir daquele ponto. Um dos grupos, o maior deles, era composto pelos decepcionados com Jesus. Aqueles discípulos que tinham convicção de que ele era o Messias e que não o seguia por interesses pessoais, como aqueles que já haviam ficado para trás, desmascarados por Jesus nas suas intenções de aquisição de bens e alimento pelo método fácil. Era um grupo bem intencionado que tinha perspectivas nacionais com respeito à política de dominação do território, e, quem sabe, até algumas esperanças globais no que dizia respeito à saúde e o bem estar de todos. Estavam com Jesus visando um projeto maior que suas próprias barrigas, mas que na hora do “vamos ver” ficaram indignados com Jesus: Muitos seguidores de Jesus ouviram isso e reclamaram: — O que ele ensina é muito difícil! Quem pode aceitar esses ensinamentos? (Jo 6,60)

Este contingente era composto de pessoas parecidas com os caminhantes de Emaús, que da mesma forma que estes, ficaram tristes, cabisbaixos, diria até que ficaram consternados, mas, acima de tudo, ficaram mesmo decepcionados. Nós pensávamos que era ele quem iria redimir Israel. Perdemos três anos seguindo o Messias errado.Seguiram o Messias das suas próprias convicções, o Messias que estava programado para fazer aquilo que sempre se esperou que um Messias fizesse. O Messias das mais nobres expectativas humanas. Eles queriam o Messias que fazia sangrar, não o que sangrava. O Messias que vencia os inimigos pela força, não o que os amava como a si mesmo. O Messias que vencia a tudo e a todos, não o que se deixava ser consumido pelo mal.

Para quem pensa assim aquela proposta de pacto é inviável, inexequível. Não faz qualquer sentido se deixar derrotar quando a vitória depende de meros detalhes, tais como convocar doze legiões de anjos para lutarem em seu favor. O Império Romano dispunha, segundo alguns, de no máximo seis legiões na época, e nem um anjo havia entre eles. Significava uma barbada para as tropas celestiais de Jesus. E a lógica não para aí, o mundo inteiro seria beneficiado, caso Roma deixasse de oprimi-lo, como já fazia há séculos.

Mas a condição imposta por Jesus não previa esta possibilidade. Era cortar a mão, perder um olho, ficar manco e estropiado ao lado dele no Reino, ou continuar gozando de plena saúde e conforto fora do Reino. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue vive em mim, e eu vivo nele. O Pai, que tem a vida, foi quem me enviou, e por causa dele eu tenho a vida. Assim, também, quem se alimenta de mim terá vida por minha causa.

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