Licença para matar

E, lançando-o fora da cidade, o apedrejaram. As testemunhas deixaram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo. E apedrejavam Estevão, que invocava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito! Então, ajoelhando-se, clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado! Com estas palavras, adormeceu. Atos dos Apóstolos 7.58-60
Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote e lhe pediu cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho, assim homens como mulheres, os levasse presos para Jerusalém. Atos dos Apóstolos 7.58-60 e  9.1-2

É exatamente deste jeito que Paulo nos é apresentado pela Bíblia, como Saulo, um homem seguro de suas convicções e pronto a levá-las até as últimas consequências. Alguém que pede e recebe uma carta de autorização para prender, matar e destruir. Talvez até tenha sido esta cena que inspirou, nos anos de 1980, um filme do James Bond, o agente 007, com esse nome: License to kill. Uma atitude drástica que o cinema fez parecer heroica e patriótica. Mas quem viveu os primeiros anos da fé cristã, assim como os anos de chumbo no Brasil sabe que não é bem assim que a banda toca, sabe que esta situação tem dois lados.

A questão não certo ou errado, não são os argumentos, porque estes são sempre lógicos, não é se está ou não de acordo com a lei, a questão aqui nesta meditação, é a seguinte: Porque um homem que recebera tanto poder, tendo atingido o grau máximo de autoridade, plenamente convicto de suas crenças, veio a debandar para o lado perseguido, chegando a ser o principal alvo de perseguição daqueles que antes o admiravam? O que o fez passar de perseguidor a perseguido? Algumas considerações devem ser feitas antes de tentarmos responder a esta pergunta.

Por trás de todas as mudanças drásticas existe sempre um divisor de águas. Por trás de todos os recomeços existe sempre um fato gerador da mudança. E no caso Saulo, a meu ver, foi a morte de Estevão, da qual participou diretamente. Saulo pode ver que além da razão, do direito e da tradição existe algo que supera em muito tudo isso. Algo que ele até já ouvira falar que acontecera com algumas pessoas na história do seu povo. Aqueles que, da mesma forma que o discípulo do carpinteiro, se deixaram matar pelas mãos de perseguidores implacáveis como ele, por vislumbrarem um propósito mais elevado. Saulo, antes de se tornar Paulo, foi testemunha de um ato de fé que o deixou de mãos amarradas, preso, desfalecido de suas convicções e que destruiu todos os seus melhores conceitos. Dez ou quinze segundos da fé de Estevão foram suficientes para abalar trinta bons anos de ensino rabínico que ele aprendera desde sua infância.

A fé prima por este propósito: encorajar os perseguidos por causa da justiça, e fazer calar o inimigo e o perseguidor. Ter fé em Deus é aceitar os seus desígnios em nossa vida, e não a convicção de que será sempre livrado do mal. Para Saulo continuar firme na sua perseguição contra a igreja nascente bastava apenas um sinal de fraqueza por parte de Estevão. Bem mais do que sua morte por apedrejamento, ele queria a rendição, a negação da fé e a aceitação da opressão, e a fé é negação, mas a negação de tudo que Saulo mais esperava de Estevão.

Uma segunda consideração leva em conta que Saulo perseguia pessoas judias como ele, filhos de Abraão como ele, instruídos na mesma tradição e herdeiros da mesma herança que ele. Era quase como se perseguisse a ele mesmo. Será que pelo menos um dia da sua vida Saulo não acordou com vergonha de ser da maneira como Deus o havia criado? Será que nem por um dia foi humilhado na sua condição de ser humano pelo Império Romano? Por mais que reconhecesse em si a autoridade que lhe havia sido dada, em algum momento da sua história de vida ele se viu na condição humilhante de subalterno de uma poder ainda maior do que o do Sinédrio judeu. Por menos que fosse a sua capacidade de analisar criticamente os seus dois estágios, ele aprendeu pela própria experiência que de fato existem dois lados em uma perseguição.

Alia-se a isso o som das pedras lapidando o corpo de alguém que não esboça o menor receio diante da morte iminente. Os romanos tiranizava o povo judeu em uma escala de poder que não deixava margem alguma para que se pensasse em um tipo de libertação a curto e a médio prazos. Por outro lado, os líderes judeus tiranizavam os segmentos menos favorecidos da sociedade com leis e preceitos religiosos que também não os permitiam sequer sonhar com a liberdade. E Saulo se depara com alguém que tinha ao alcance da mão tudo para se livrar do martírio, bastando negar alguns preceitos de sua fé, e tão aceita sobre si toda intolerância.

Saulo se viu diante de alguém que podia julgar sem medo a conjuntura política e religiosa que ele ferrenhamente defendia, sem nunca ter questionado, por que tinha medo do que lhe aconteceria em seguida. Saulo viu naquele apedrejado uma segurança muito maior do que aquela que ele procurava em todos os itens da lei que defendia. Uma sensação de dever cumprido que nem a atitude mais estrema em favor do judaísmo havia lhe garantido até então. Sua licença para matar estava cancelada. Não por ordem superiores, mas por uma fé que a tornou inteiramente inócua. 

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