Profetas de quem?

O Senhor está no seu santo templo; nos céus tem o Senhor seu trono; os seus olhos estão atentos, as suas pálpebras sondam os filhos dos homens. O Senhor põe à prova ao justo e ao ímpio; mas, ao que ama a violência, a sua alma o abomina. Salmo 11,4-5
Queremos Barrabás, Honoré Daumier (1808-1879)
Toda religião que não diz que Deus está oculto não é verdadeira. Blaise Pascal.

Diante dessas frases, que são a mais pura realidade no contexto cristão, alguém já tentou conceber como era árdua a vida de um profeta? Deus está no seu templo, e jamais ser visto por homem algum, são a base de toda e qualquer mensagem profética, posto que a mais sutil iniciativa de partida divergente desta, já seria por si só um alerta de conduta idolátrica. Relatado de forma mais compreensível nos Mandamentos, o reconhecimento da alteridade de Deus é um fundamento de fé imutável. O prefixo alter significa outro, e reconhecer que Deus é outro, que é alguém totalmente diferente de nós é o começo de qualquer manifestação no sentido de buscarmos com ele uma aproximação. Karl Barth dizia que Deus é o totalmente outro, em absolutamente nada pode ser equiparado às suas criaturas.

Para a maioria do povo judeu, ver a face de Deus seria o prêmio máximo a ser alcançado durante o transcurso de uma vida. Não são poucos os salmos que expressão este desejo. Não sei se dado a inveja que tinha de seus vizinhos pagãos, que viam seus deuses a hora que desejassem, e os carregavam para onde fossem, consentido estar permanentemente na sua presença, mas o que o desejo era latente não ficou a menor sombra de dúvida. Por isso eu volto a insistir na cruel ambivalência em que viviam os profetas de Deus no passado. Como é não ver a face de Deus e mesmo contra vontade abdicar de uma vida para anunciar a sua Palavra? Talvez eu possa dramatizar um pouco mais ainda a situação. Como é não ter respaldo algum para suas palavras, e ser intimado a dizê-las assim mesmo, contrariando expectativas, poderes constituídos e a própria realidade que se mostrava divergente?

Para a teologia consensual da época, para quem Deus era mais um numa assembleia de deuses, mas que, de alguma forma, assentava-se no trono diante deles, alguém pretensiosamente dizer: Antes dele não houve Deus, e depois dele não haverá, teria de imediato seu passaporte carimbado para a inquisição. Levando-se em conta que esta teologia hoje ainda sobrevive no seio da Igreja, através de cânticos pretensamente piedosos que dizem não haver um Deus maior, como entender que ainda houvesse quem se aventurasse a ser profeta?

Às vésperas de mais uma conferência mundial sobre meio ambiente, algumas considerações precisam ser feitas. Quem pode citar uma única experiência positiva resultante do atrelamento da religião ao consenso humano? Entre as tragicamente negativas posso citar algumas, tais como a institucionalização da fé cristã como a oficial do Império Romano, a colonização da Américas sob a premissa de catequizar os indígenas, e a mais injusta de todas, a escolha de Barrabás, resultado conjunto da pressão dos sacerdotes com a quase totalidade da vontade popular. À primeira vista, o engajamento da igreja cristã, como num todo, nesse ultimato de preservação da vida na terra, parece ser um ato louvável. Há quem ande dizendo: Até que enfim a Igreja foi sensível ao apelo do povo. Por outro lado há quem diga que não, que a igreja embarcou numa grande canoa furada. Quem tem ou não razão, pouco importa para o momento, importa sim quem é aquele que traz consigo a mensagem profética de Deus para esse nosso tempo.

Considerando-se que o segmento que aterroriza o mundo com o holocausto do aquecimento global, produz lucros vultosos para si e para os países desenvolvidos. Considerando-se que a emergente competitividade de países subdesenvolvidos está abalando seriamente a economia do velho continente. Considerando-se que há menos de trinta anos, os mesmos que arautos do aquecimento previam que a crise mundial seria causada por um resfriamento global. Considerando-se que o Brasil é o único dos países emergentes a entrar de cabeça neste movimento. Não seria prudente ouvir as vozes contraditórias daqueles que por se oporem a essa ideia tiveram as verbas de suas pesquisas caçadas? Aqueles que nunca são convidados para as mesas de debate sobre o clima e o meio ambiente? Quem sabe dar uma oportunidade àqueles que não saíram na capa das revistas e jamais foi manchete de jornal?

Que eu esteja lembrado, a permissividade da Igreja cristã com o nazifacismo, foi o seu último erro de consequências mundiais. Tivemos mais de setenta anos, curiosamente o mesmo tempo que levou o exílio babilônico, para refletirmos sobre onde devemos ou não colocar o nosso aval. Qual seria, senão a Rio+20, a hora mais propícia para a igreja engajar-se por inteiro na autêntica mensagem profética, quer aponte ela para onde o Deus soberano, que põe a prova tanto o justo quanto ímpio, quiser apontar?  

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