Misericórdia é dar o coração ao miserável

Bom samaritano de Luca Giordano (1634-1750)  
Bem aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia. Mt 5,7

Será que já paramos para pensar o que seria misericórdia? As regras de fé dizem que temos que ter obras de piedade e obras de misericórdia, será que sabemos qual é a diferença entre elas? O livro das lamentações de Jeremias diz que as misericórdias do Senhor são o motivo de não sermos consumidos. O Primeiro Testamento fala claramente pela boca de Oséas: Misericórdia quero e não sacrifício. Pedro na sua primeira carta afirma: Vocês não eram povo de Deus, mas agora são povo de Deus; antes, não conheciam a sua misericórdia. Como vimos, é um tema recorrente em toda a Bíblia, algumas de suas citações já conhecemos, mas seriam elas suficientes para entendermos o que é ser misericordioso?

Segundo o salmista, o maior castigo para o seu povo seria se Deus retirasse a sua misericórdia, pois ela é o clamor pela ajuda prometida e esperada de Deus. A própria palavra misericórdia, que em hebraico é hesed, possui o aspecto de devoção e solidariedade, mas tem um ingrediente a mais. Ela não é apenas um eco de bondade que pode se enganar quanto ao seu objetivo. Vou ser bom, para Deus ser bom comigo. É uma bondade consciente e uma resposta de fidelidade. Pois é assim que Deus age conosco, por isso ele exige de nós essa atitude, que juntamente com a ajuda e a providência, entreguemos também o coração ao necessitado.

Aí então nós vamos descobrir que há dois tipos de misericórdia: a misericórdia de Deus, e a nossa misericórdia. São essencialmente diferentes e incomparáveis, porque as misericórdias de Deus são o motivo da nossa existência e da nossa subsistência. Contudo, as outras pessoas não deixam de existir pela falta da nossa misericórdia. Com ela, poderiam viver bem melhor, mas nós não somos tão essenciais para os outros como Deus é para nós. Para a Bíblia é assim: Se nós estamos vivos, é porque Deus tem misericórdia para conosco. A essência da vida é a misericórdia, vivemos pela misericórdia de Deus, mas teríamos vida plena e abundante se tivéssemos misericórdia uns para com os outros.

Mas existe um segundo aspecto na misericórdia. É o desafio de Deus apresentado pelo profeta Oséias: Misericórdia quero e não sacrifício. É bom nos lembrarmos de que a palavra sacrifício não tem necessariamente a conotação ruim que a damos. Sacrifício é abrir mão do que nos é caro, é fazer renúncias em favor de alguém ou de alguma causa. Mas não é só isso, é tornar este ato sacro, separado de qualquer jogo de interesses. Paulo em I Co 13 diz: Eu posso distribuir todos os meus bens entre os pobres e entregar o meu corpo às chamas para salvar alguém, se o meu coração não estiver junto, nada disso vai me adiantar.

O Primeiro Testamento diz que a misericórdia é um ponto de ruptura com o paganismo. Desde muito cedo Israel entendeu que não adiantaria chegar-se para Deus pedindo o extermínio do inimigo, e invocá-lo para satisfazer a sua sede de vingança. Através de duras experiências foi aprendendo que para ser povo de Deus, exigia a tendência de ser misericordioso, porque o seu Deus é um Deus de misericórdia. Pode ser que aos olhos da modernidade a Lei de Talião: olho por olho, dente por dente seja uma crueldade, mas para os antigos era um exercício bem complicado. Entre os povos da antiguidade prevalecia o Anátema, o extermínio, o genocídio. Mas em Israel não poderia ser assim, quem experimentou a misericórdia de Deus, tem que colocar um freio na sua vingança, e o olho por olho era justamente esse freio. Dali para frente era permitido somente olho por olho, dente por dente. Não mais a matança desenfreada.

Mas a misericórdia não para aí, ela avança, ela progride até alcançar o perdão. O povo de Deus começa a aprende a perdoar, e os seus cânticos e provérbios ensaiam um novo tom: O caminho das pessoas boas e direitas é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais, até se tornar dia perfeito. Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere. Já se nota nos escritos mais tardios do Primeiro Testamento essa inclinação para a misericórdia.

Ainda há um terceiro aspecto. Estava o povo experimentando a bênção do perdão até que veio Jesus e disse que deveríamos ir além, que só o perdão não era suficiente. Era preciso ter misericórdia, mas não a nossa, e sim a misericórdia de Deus, que não somente perdoa, mas que refaz, que restaura e que dignifica. Aqui entra a bem aventurança da misericórdia, de ir além do perdão, além do esquecimento, ir além de rasgar uma conta. Muito mais que ser uma moeda de troca, a misericórdia de Deus é uma via de mão dupla. Eu experimentei a misericórdia de Deus, por isso eu sou constrangido fazê-la conhecida. Ela precisa fluir além de mim, ela precisa alcançar o outro.
 
Talvez não haja na Bíblia exemplo mais evidente sobre este fluir do que a parábola do Bom Samaritano. Observem que ele não era amigo, pelo contrário, que ele não era conhecido, pelo contrário, e não tinha qualquer culpa pelo infortúnio do outro, mas aquele homem foi além. Foi além das suas obrigações, assistiu a quem não gostava dele. Foi além das suas possibilidades, não somente gastando o que tinha, mas também o que não tinha, para que o outro fosse atendido. Assim funciona a matemática da misericórdia de Deus: onde duas moedinhas valem mais que grandes somas; quando uma ovelha é mais importante que 99; quando aquele que trabalha por uma hora recebe o mesmo do que aquele que trabalhou o dia inteiro; onde apenas duas gotas de perfume bastam, ele derrama sem medida.

É difícil? Claro que é. Mud dizia que para ser cristão não é preciso muita coisa, para ser cristão é preciso tudo. É esse tudo que somos, indecisos, vacilantes, inconsequentes, mas em Deus alcançamos misericórdia. Essa misericórdia não pode ficar estagnada, dentro de nós ela é apenas uma bênção. Se fizermos dela uma corrente, fatalmente ela se tornará uma bem aventurança, pois assim disse Jesus: Vocês serão bem aventurados se todos forem misericordiosos, porque estarão condenados a viver num mundo de misericórdia.

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