Vento de Deus

O Pentecostes, gravura de 1200 dC 
De repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. Atos 222


Domingo próximo passado foi celebrado por toda a cristandade o dia de Pentecostes, ou, o dia do nascimento da Igreja de Jesus Cristo. Este dia marcou o início de um novo e ambicioso projeto que seria levado a cabo por aquele pequeno grupo de seguidores, chamados de discípulos. O grupo que sobrevivera à crise da paixão e morte de Jesus. Pelo tom das narrativas, percebe-se que, embora se mantivessem unidos e fiéis, estavam reunidos em local secreto e de portas fechadas por estarem com medo de represálias dos sacerdotes judeus, que segundo Lucas, foram os únicos culpados da morte do seu Mestre. Ou seja, o principal objetivo daquele grupo era permanecer vivo. O clima era de um medo incontrolado de que, a qualquer hora, entrasse alguém por aquela porta e os denunciassem, expondo-os ao perigo. É justamente naquela hora que alguém, que por falta de um nome mais apropriado é chamado de vento, entrou pela porta que, mesmo fechada, não foi capaz de conter a sua impetuosidade.

Aqui começa a nossa meditação sobre esse vento que, para espanto de todos, ainda hoje consegue passar através de portas muito bem fechadas. Diante disso, algumas questões surgem naturalmente: Para quem ele foi enviado? Quem o enviou? Com que propósito? E o mais importante, quem poderá suportá-lo?

Logicamente que em primeira estância foi o próprio medo que não lhe fez resistência. Este foi o primeiro a não resistir ao seu ímpeto. Pode não haver nos registros históricos algo que autentique sem contestação a vida e a obra de um rabi judeu, Jesus chamado Cristo. Como também não há narrativas de outros escritores, senão destes que estavam diretamente comprometidos, sobre a atuação deste vento que milagrosamente entra por portas fechadas. Mas um fato é incontestável: Alguma coisa transformou aquele grupo de pessoas temerosas e covardes em intrépidos pregadores de uma novidade revolucionária nada bem vinda. Na contramão das nossas penitentes orações, a predisposição do vento de Deus, não é nos livrar dos perigos que se apresentam em nossa caminhada rumo ao Reino, e sim nos encorajar a enfrentá-los. O que ele primeiro derruba é essa muralha que levantamos ao nosso redor, que nos dá a falsa sensação de segurança. Mais do que nunca precisamos anunciar que o vento de Deus precisa entrar nos condomínios fechados, nos carros blindados, nos conhecidos templos da segurança particular. Dizia Richard Bach: Se buscas a segurança antes da felicidade, a segunda será o preço que terás que pagar pela primeira.

A investida seguinte empreendida pelo vento de Deus é contra a relação oprimido x opressor, que naquela época estava bem definida. Os alicerces dos poderes políticos, por parte dos romanos, e religiosos, por parte dos líderes judaicos, estavam firmemente fincados, e tudo que viesse perturbar essa ordem não seria de imediato aniquilado. O vento veio para derrubar essa relação e nivelar a todos debaixo de um poder que pretende estabelecer-se pela solidariedade, pela justiça e pelo amor. As narrativas dos Atos dos Apóstolos nos contam que já não havia mais necessitados entre eles, pois indistintamente todos eram atendidos em suas necessidades mais prementes. Por onde passa o vento de Deus não subsistem barreias sociais.

Há de se notar também uma terceira investida do vento de Deus. Desta vez contra o sectarismo regionalista. O vento atravessa o coração de pessoas de procedência, de índoles e de propósitos essencialmente diferentes, fazendo com que todos falem a mesma língua e tenham todos um só coração. Sabemos bem que quebrar a barreira do regionalismo e do sectarismo é uma tarefa nada fácil. Está aí a ONU que, prestes a fazer 70 anos, tem em seu currículo muito mais tentativas e fracassos do que propriamente sucessos para contar. Onde a diplomacia, a boa intenção, a boa vontade dos homens com suas mirabolantes propostas de conciliação falham, o coração transformado pelo vento de Deus pode fazer toda a diferença. Não são poucos os cientistas políticos e historiadores que afirmam que a Inglaterra safou-se de uma revolução sangrenta como a que aconteceu na vizinha França, simplesmente pela pregação de John Wesley. Coincidentemente a partir do momento que este teve o seu coração transformado pelo vento de Deus.
Ainda podemos assinalar outra investida do vento de Deus. Esta contra a relevância das diferenças individuais. E acontecerá que naqueles dias, diz o Senhor, farei soprar o meu vento sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e todos eles falarão em meu nome. Velhos, crianças, servos, livres, homens, mulheres, ou seja, a pluralidade na sua mais expressiva forma. O vento investe contra a rigidez da doutrina, dos costumes, e eu diria até contra certos tipos de moral, que mais revelam a nossa intolerância do que o propósito de sermos fiéis a Deus. O vento veio para revelar que quem gosta do uniforme é o outro. Quem gosta do coturno é o outro. Quem gosta da padronização é o outro. Deus gosta mesmo da pluralidade das formas, das cores e das experiências. Nela ele sopra onde quer e sobre quem quiser. Ele vem de onde não esperamos e vai para onde jamais saberemos.

É por tudo isso que em certas horas eu duvido da sutileza do evangelho, cujas premissas levam em conta um Deus que bate à nossa porta e pacientemente aguarda ser convidado para entrar e agir em nossa vida. Ao testemunhar tantos fatos que corroboram diretamente com a narrativa de Lucas, sou impelido, quem sabe por este mesmo vento, a duvidar que seja sempre assim. Tenho pra mim que se o vento de Deus vai bater suavemente ou arrombar a nossa porta, vai depender do lado que estivermos dessa porta.

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