Vocês não sabem o que estão pedindo

Jesus e os filhos de Zebedeu, anônimo 
Leiam Marcos 10,32-45

A morte do meu amigo João Wesley e o seu criticado modo de viver o evangelho, me tem feito pensar bastante sobre essa corrida frenética que estamos empreendendo pela nossa salvação. Me tem feito pensar também nas mais diversas regras estabelecidas pelas variadas denominações, com o intuito de alcançá-la. Tenho pensado também o quanto cada um de nós tem se empenhado, segundo a regra que adotou, para conquistar o melhor lugar possível na mesa do Grande Banquete Celestial. Perdoem-me pela expressão, mas é muito provável que eu esteja sendo anacrônico, ao relacionar o céu da nossa salvação com uma mesa de um banquete, porque a intenção explícita de declarada dos cristãos de hoje, pelo menos assim o dizem nas músicas que cantam e as orações que fazem, é um pouco mais ambiciosa do que simplesmente uma cadeira à mesa de Deus. Tenho pra mim que nada denuncia melhor esta nossa realidade do que a série exibida pela HBO, chamada Game of Thrones, ou Jogo dos Tronos. Para quem ainda não a assistiu, a série narra as inúmeras falcatruas, conchavos e delitos para a conquista do trono em uma Era Medieval fictícia. Parece que nós estamos nesta verdadeira disputa para ver que merece sentar-se à direita e à esquerda do trono, para reinar soberano ao lado de Deus.

Se alguém está achando estranhas e inoportunas estas minhas palavras, não leu o texto recomendado acima, porque ele não somente relata uma situação muito semelhante à que estou apresentando, como também se constitui numa prova irrefutável de que estas palavras de recriminação, não acrescentam qualquer novidade contra a postura adotada pela igreja nos dias de hoje. Ou seja, desde sempre a igreja esteve mais preocupada em sentar-se no trono do que ocupar o seu lugar à mesa.

Vocês não sabem o que pedem, é o que Jesus responde quando cai a ficha. Quando ele ainda atônito, tenta interpretar o estava sendo pedido por Tiago e João. Eles simplesmente pediram para que um se sentasse à direita e o outro à esquerda do trono de Jesus na glória. Minha estreita visão teológica intui que ele o faz visando dois aspectos diferentes, os quais vou me empenhar em traduzir, segundo o melhor das minhas limitações.

Primeiramente Jesus diz: Vocês não sabem o que estão pedindo pra si. Vocês não fazem ideia do tamanho da responsabilidade que estão atraindo sobre vocês. Os discípulos só enxergaram o final feliz da história: Jesus na glória reinando soberano. Observem que eles usaram as artimanhas da malandragem para fazerem o pedido em dois tempos. Tentaram amarrar Jesus com a sua própria benevolência. Antes de dizerem o que realmente queriam, meticulosamente preparam o terreno: Nós queremos pedir uma coisa, você vai fazer? Não deram a menor atenção ao que Jesus havia dito minutos antes: O Filho do Homem está indo para Jerusalém para ser traído. Zombarão dele, baterão nele, nele cuspirão, para depois o matarem. Vocês imaginam serem capazes de beber desta taça, de passar por este batismo? O árduo caminho que leva à cruz sequer é levado em conta, e os tolos ainda se disseram capacitados, porque a sua cobiça só os permitia enxergar a taça do banquete, mas não a outra taça, a que não era do banquete, a taça da qual o próprio Jesus suplicou para não beber.

Por trás disso tudo se percebe um misto de prepotência e ignorância. Prepotência por julgar que se pode, por seus próprios méritos, conquistar o que Paulo chamou de grande salvação. E ignorância por querer tomar exclusivamente para si, o dom que Deus fez questão absoluta de distribuir igualmente entre todos. Fico indignado com as orações que pedem porção dobrada do Espírito Santo. Como ainda podemos pedir porção dobrada de algo que foi derramado sem medida?

Vocês não sabem o que estão pedindo pra mim. Não sou eu que determino onde cada um vai sentar-se. Definitivamente, Jesus era benevolente demais. Eu nem quero imaginar o que aconteceria se um pedido desse tipo fosse feito a Paulo. Se em I Tm 1.20 ele diz que entregou Himeneu e Alexandre a Satanás para serem castigados, por muito menos, o que não faria com esses dois? O que mais se tem feito nos dias de hoje é colocar Jesus contra a parede, como fizeram Tiago e João. São pedidos e cobranças que só levam em consideração três ou quatro versículos bíblicos que falam de promessas. Todos os outros que falam da contrapartida, passaram a fazer parte de uma aliança antiga que não precisa mais ser cumprida.

Vocês não sabem o que estão pedindo a mim, porque nada disso garante lugar na salvação. Nem louvores, nem renúncias, nem flagelos, nem ofertas e nem mesmo serviço que eu tanto peço vocês. Nada disso garante lugar no céu. Porque a mim só foi dado poder abaixo do céu. Porque o céu é do meu Pai, e somente ele, baseado em seus próprios critérios, diz quem vai se sentar e em que lugar.

Realmente não sabemos o que estamos pedindo. Não enxergamos nada além da concepção política do messianismo. Unicamente visando o aspecto do poder e da recompensa, que ainda nos dispomos a enfrentar lutas e desafios em favor do Reino de Deus. Vez por outra aparece uma oportunidade de fazermos coro com a população em geral. Uma catástrofe comovente, ou, como é agora, o caso da Rio+20. É justamente aí que damos com os burros n’água, mesmo sem termos a noção concreta do que está sendo questionado, baseados em dados de uma única fonte, sem darmos atenção a qualquer manifestação contrária, damos o nosso irrestrito aval. Estamos diante da prova cabal que a igreja nunca mediu a consequência das suas petições: nem no passado com Tiago e João, e nem no presente recente, na Conferência Mundial Sobre Meio Ambiente.

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