O Cântico da Tragédia I

A queda de Jerusalém por Roberts Siege em 1683 
Toda essa meditação foi baseada no Salmo 44, não deixe de lê-lo.

Um telejornal mostrou a cena de uma senhora idosa, ajoelhada em uma ponte, clamando a Deus que livrasse, a ela e à sua cidade, da enchente que assolava a região do rio Itajaí, em Santa Catarina. Ela orava assim:Senhor, não permita que o rio inunde as nossas casas de novo. Uma cena comoventemente triste, e de um apelo emocional que dificilmente deixaria de sensibilizar o mais duro coração. Como conhecemos bem a índole dessa famosa emissora e o seu antagonismo declarado à fé cristã, temos que concluir que, ao colocar no ar essa reportagem sensacionalista, a sua equipe de telejornalismo tinha absoluta certeza de que a cena provocaria apenas um questionamento entre os céticos: Se existe realmente um Deus, por que ele não vê isso?

Muito embora possa soar como blasfêmia aos nossos ouvidos, temos que admitir que mesmo pessoas que possuem uma fé esclarecida e que não duvidam da existência de Deus; no instante em que são tocadas pela comoção de cenas, como a que foram mostradas, dúvidas atrozes sobre a consciência de Deus afloram naquele momento. E, em meio a incertezas, completamente aturdidas, e ainda que temerosas, essas pessoas são quase que involuntariamente são tentadas a pensar: O que Deus está fazendo numa hora dessas?

Contudo, ainda existem aqueles que nunca ousam questionar a onipresença ou a onisciência de Deus. Que jamais erguem suas mãos aos céus em sinal de protesto. Mesmo essas pessoas que aceitam submissos a vontade de Deus sem ponderações ou queixas, na hora em que são assaltadas pela dor de uma tragédia próxima, o recanto mais íntimo dos seus corações abriga uma pergunta não quer calar: Porque Deus não responde positivamente a orações sinceras e justas como a dessa mulher?

Tenho pra mim que este breve relato encerra o quadro dos sentimentos e sensações a respeito de Deus, que as catástrofes, naturais ou não, provocam em todos nós. Tenho pra mim que estes são os questionamentos viáveis para grande maioria das pessoas que somos e conhecemos. Somente um santo ou uma santa, na mais precisa concepção da palavra, não cobraria de Deus uma resposta, ou faria qualquer tipo de questionamento diante do infortúnio. Nem mesmo Jó, o intitulado campeão da resignação, foi tão santo assim. Contudo, se há alguém aqui cuja vida contrarie o que eu disse, ou alguém conhece uma pessoa que não se encaixe nas hipóteses levantadas, que me perdoe, porque eu não sou assim e nem conheço quem o seja. Perdoe-me pelas citações, e perdoe por trazer uma meditação que não tem nada a ver com você. Mas, mesmo constrangido, vou seguir em frente.

O grande teólogo Dietrich Bonhoeffer dava o nome de desperatio a situações como a dessa mulher catarinense. Situações em que os transtornos da alma são tão intensos. Situações em que a aflição é tão premente, que os questionamentos já não são mais dirigidos aos motivos causadores da tragédia, e nem às circunstâncias em que ela acontece, mas diretamente a Deus. Situações em que o desespero não permite qualquer atitude desesperada, porque elas causam o aniquilamento completo da vontade e da esperança. É o encontro da pessoa com o caos original, quando o Espírito de Deus pairava sobre as águas, e ainda não havia sequer criado a luz. É a destruição total do ser e do existir. Esta é a declaração de impotência de quem se encontra completamente prostrado diante do ímpeto do infortúnio e nada pode fazer, senão clamar por socorro à providência divina.




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