Sou Deus, não homem

Arca da Aliança, Catedral de Sta Marie, França 
Deus não é um homem para mentir e nem filho de homem para se arrepender. Números 23.19

Um dos absurdos mais combatidos pelas Escrituras e que está sendo bastante difundido entre nós hoje é o antropomorfismo de Deus. Desde sempre Deus teve a preocupação de, ao revelar-se, mostrar-se diferente dos ídolos pagãos que nada mais eram que reproduções exatas do homem em seu estado mais natural. A antiguidade estava recheada de deuses ciumentos, coléricos, desconfiados, traiçoeiros e portadores de todas as mazelas inerentes à natureza humana. Mas Deus, quando se revela a Abraão, toma de imediato medidas que fariam toda diferença no seu relacionamento com os humanos: ele se apresenta sem imagem, sem efígie ou símbolo, não exige que se construa templos em seu nome, e que muito conta como Abraão se relaciona com o seu próximo.

Contudo, depois disso, pelo que se pode comprovar, muita coisa extrapolou este princípio básico. Sedes do poder de Deus cada vez maiores e mais suntuosas não cessaram de ser erigidas. Símbolos, marcas e amuletos não pararam de ser fabricados. O relacionamento com Deus há muito deixou de ser através do relacionamento social, para tornar-se exclusivamente individual. 

Quanto à construção de templos e à perspectiva da salvação não se vê realmente hoje qualquer novidade. A concepção de que a salvação é somente para a igreja, justifica o investimento cada vez maior no número e no tamanho dos templos. Podemos notar sim, alguma novidade na introdução de símbolos extraídos do Judaísmo tardio nas celebrações cúlticas de hoje. Está ficando cada vez mais difícil encontrar uma igreja que não tenha uma menorá, um shofar ou uma mezuzah. Não vou entrar no mérito dessa questão. Para isso recomendo que se procure na internet uma matéria de Nelson Menda chamada Costumes brasileiros “importados” do judaísmo. Está ficando difícil também subtrairmos o hebraico das nossas liturgias. Desconfio que meu velho pai, que era pastor, deve ter tido alguma dificuldade para entrar no céu, pois nunca entrou em uma shekinah, assim como também jamais orou a YHWH Tzevaot. Porém, vamos nos esquecer desses detalhes e tentar extrair desta meditação algo produtivo.

O versículo acima, apesar de aparecer em um dos primeiros livros da Bíblia, é fruto de um pensamento teológico mais recente, e veio para combater, através do esclarecimento, muitas citações que encontramos na Bíblia. Citações estas que concluem que Deus possa ter mentido, errado em seu julgamento ou se arrependido. Ou seja, um antropomorfismo de Deus declarado na sua própria Palavra. Para esta finalidade poderíamos citar outros textos, mas penso que o de Jonas 3.10 é o mais incisivo deles. Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez. Algumas traduções dizem: Eu me arrependi do que disse que ia fazer. Mesmo que o texto fale de erro de julgamento e de não cumprimento da palavra, o que está em evidência nele é o fato de Deus ter se arrependido. É justamente aqui onde acontece o erro de julgamento, não de Deus, mas que, pelo desconhecimento de sua Palavra, passa a ser nosso.

O hebraico possui duas palavras que foram para português igualmente traduzidas por arrependimento: LÊNAHÊM e LASHÚV. O verbo que deriva do radical LÊNAHÊM é geralmente utilizado quando o texto se refere à ação de Deus, e está diretamente relacionado à palavra grega METÁNOIA, que por sua vez significa mudança de pensamento ou de mente. No seu original quer dizer que a situação pesou no coração de Deus, e o LÊNAHÊM fez com que ele se inclinasse favoravelmente à causa humana, abdicando assim dos seus direitos que constavam na aliança previamente firmada. Quando o texto usa o LÊNAHÊM não está nem de longe querendo dizer que Deus fez um juízo prévio errado do qual veio mais tarde a se arrepender. Quer dizer sim que Deus, na sua Onipotência, se permite perdoar e esquecer das tolices e delinquências que nós, seres humanos, estamos sempre repetindo.

O mesmo não acontece com a palavra LASHÚV, que está relacionada à palavra grega RAMATIA, ao pé da letra traduzida por errar o alvo. Muito mais do que um simples ato de arrependimento, LASHÚV diz respeito à degradação moral, a atitudes fora de propósito, ao total fracasso nas intenções. Quando o homem chega ao LASHÚV não lhe resta qualquer dignidade, é o que Jesus quis nos ensinar quando contou a parábola do filho pródigo, mais especificamente na hora em que ele cai em si. O LASHÚV é a sensação plena do pecado, da derrota e do fracasso. Quer dizer que quase sempre o homem se arrepende quando não lhe resta mais nada a considerar.

Podemos claramente observar que, se por um lado o arrependimento é injusto quando se refere a Deus, é por demais complacente quando se trata do ser humano. Por conta disso devemos pensar melhor quando fazemos qualquer juízo ou mesmo nos dirigimos a Deus com conceitos e palavras usadas no nosso cotidiano. Nesta hora é sempre bom que nos lembremos do profeta Oséias, que quando percebeu que seu povo estava confundindo esse relacionamento, inteiramente tomado por inspiração divina disse palavras que deveria se eternizar em nossas mentes e corações: Porque eu sou Deus e não homem. O santo no meio de vós

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