Participação e comprometimento

Pietá de El Grego (1541-1614)
Leia Isaías 50,4-9

O servo sofredor de Deus, na concepção de Isaías, não é um diplomata estrategista, nem mesmo um bem letrado guardião da fé de Israel. Mas alguém que se apresenta com dons bastante interessantes: um discurso culto, mas que o necessitado ignorante consegue entender; um ouvido apurado e atento, sensível ao clamor do aflito, inclusive das pessoas mais eruditas. Ingredientes que muito eficazmente sugestionam de forma negativa a mente rebelde e inconformada. Mas o servo aprendeu a fazer uso dos dons para fins pacíficos, abrindo mão do inconformismo beligerante.

Em vez de usar o valor do conhecimento e o poder da persuasão para fomentar revolta contra a violência, ainda que por motivo justo, ele faz com que a violência se volte para si, e assim amenizar o sentimento de revolta nas pessoas. Talvez seja esse o principal elemento na diferença entre a participação e o comprometimento.

O meu falecido amigo João Wesley, que foi mais do que pós doutorado em marketing farmacêutico, nas tantas palestras que fez a médicos e representantes de laboratórios, como tem nas suas aulas na Escola Dominical, se valia da mesma história para explicar quais são as implicações do compromisso, que o distinguem da mera participação. Ele dava como exemplo o sanduiche de bacon com ovos, no qual a contribuição dois animais se faz necessária. A galinha que colabora dando os ovos, e o porco que contribui com o bacon. Dizia ele: um apenas participa, mas o outro está inteiramente comprometido. Lembro-me bem da cara de bobo que fiquei por não ter entendido esta comparação quando a ouvi pela primeira vez. Até onde pude compreender os dois animais eram igualmente importantes no processo. Foi quando ele disse: A galinha faz a sua necessária doação, quando contribui com os ovos, depois volta feliz e sorridente ao seu local origem. Isto é participação. Mas o porco não. Para que se tenha bacon ele precisa dar a própria vida, sem o que o fato não será consumado. Isso é comprometimento.

Se Jesus viesse ao mundo participar do plano de Deus para a salvação do homem, libertando-o de todas as coisas que o escravizam, ele teria tido uma participação jamais emparelhada. Ninguém antes dele levou este projeto tão longe, e com tanta perfeição de detalhes. Ninguém depois dele foi tão incansável e eficiente na construção das bases deste Reino. Ninguém, nem antes e nem depois dele foi tão habilidoso em expor os mistérios de Deus, e adequá-los ao limitado entendimento humano. Quando olhamos novamente o cântico do servo sofredor de Isaías, não podemos enxergar alguém mais perfeito para desempenhar a função que a figura do homem Jesus Cristo. Mas o desempenho de Jesus ficou tão acima da conta, que olhando mais uma vez o cântico, verificamos que nem mesmo Isaías penetrou tão fundo na sua concepção sobre esse servo de Deus.

Como o profeta anteviu, Jesus era o servo que buscava qualquer justificativa para o pecador, mesmo que fosse recanto mais impenetrável da alma humana. Mas que era totalmente incompreendido, até mesmo quando fazia o bem. O servo que levantava o prostrado, que dava vista ao cego, que trazia os mortos à vida. Enfim, que restaurava a pessoa humana por inteiro. Contudo, apesar de inacreditáveis as semelhanças param por aí. Até então Isaías descreveu um excepcional participante. Alguém cujo espírito voluntário não encontrou par na história da humanidade. Para Isaías Deus iria providenciar o socorro, e não deixaria o seu Justo à mercê dos mal. Mas não foi isso que aconteceu. Jesus veio ao mundo para participar e sim para se comprometer, não para morrer, como muitos dizem. Morrer por uma causa é extremismo terrorista. Ele veio sim, para assumir o seu compromisso até as últimas consequências, mesmo que elas o levassem à morte.

Diferentemente do livramento proposto por Isaías, Deus permitiu que o mal fizesse o seu melhor, que chegasse ao seu limiar crítico, que exaurisse todas as suas forças ao flagelar o servo. Se para a participação de Jesus na salvação nos faltam palavras, para o seu comprometimento nos resta apenas tentar de alguma forma ser gratos. Não há mais nada a ser feito. Tudo está consumado. Nada de bom que eu fizer me credencia a ser digno dessa graça. Nada de mal que eu venha a fazer, me descredencia de recebê-la. Mas ainda assim, o comprometimento nos é exigido. Enquanto não nos é pedido decisões extremas, que na nossa função de servo, nos empenhemos para ouvir atentos o clamor do aflito, levar ao seu coração a palavra de conforto e de esperança.

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