Eis que meu servo vence.

Flagelação de Cristo de Pierro della Francesca (1416-1492)  
Leia Isaías 52,13-16.

O quarto e último cântico de Isaías que fala a respeito do servo sofredor, tem no seu começo versos bem otimistas, levando-se em consideração os três anteriores. Ele canta antecipadamente um hino de vitória, enaltece o trabalho do servo por ter sido muito bem executado e até antevê que em um futuro indeterminado, a vitória final do servo sofredor será reconhecida por todos. Tem a firme convicção de que um dia a ele será dado o valor justo e merecido, ainda que postumamente.

Este cântico consegue antecipar que estes acontecimentos chegariam a tocar a sublimidade. Uma das poucas palavras usadas para descrever a ação de Deus que ainda não perderam a sua força. Este primeiro versículo possui uma intensidade tamanha que fazia Isaías pressentir, como se estivesse no lugar do servo, o sabor da vitória.

No entanto, parece que são somente olhos que estão abertos para Deus, como estavam os de Isaías, podiam enxergar a vitória do servo dessa maneira. Para todos os demais, a sua aparência era tão desfigurada que ele nem parecia um ser humano, não parecia ser filho de homem algum. Era uma aberração tão grande que assustava a muitos. E aqui se estabeleceu um contraste entre o que ele, Isaías, sentia, os que foram tomados pela comoção pelo estado do servo, e os que sentiram repulsa diante de tal visão. O que podia parecer um louco emaranhado de sentimentos e reações era a situação que mais exatamente expressava a intenção de Deus quando enviou o seu servo. E sobre estas três reações eu gostaria de fazer um rápido comentário.

A pior impressão que se pode ter do servo é a condolência. O sentimento de que Deus menos se vale é o de pessoas que se dispõem a sofrer no lugar de do seu servo Jesus. Pessoas que através de flagelos e sacrifícios empenham-se inutilmente em amenizar a dor da paixão de Cristo. Este é um sentimento, que embora admirado por muitos, tende a cair em um vazio inconsequente, porque leva as pessoas ficarem tentando encontrar uma resposta que justifique tamanho flagelo. Não são poucas as que passam a nutrir um verdadeiro sentimento de ódio por Deus Pai, pelo fato de permitir que seu Filho passasse por todas essas agruras. Não fazem a menor ideia de que em Cristo está tudo consumado, e que o seu sacrifício foi único e suficiente.

Para aqueles que imaginam que Deus o abandonou na cruz, porque naquela hora Jesus trazia sobre si os pecados do mundo, e Deus não pode relação com o pecado, Paulo responde: a saber, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados, e pôs em nós a palavra da reconciliação. Mas infelizmente é este o sentimento que move o mundo, inclusive a mim. Compadecer-se de uma estátua de barro deitada em uma manjedoura, mas passar longe de uma criança que dorme debaixo de uma marquise.

O segundo menos pior sentimento é o asco pelo acontecido, mesmo seja através da indiferença. Pessoas que acham que a vida e obra do servo não passaram de um completo absurdo. Não é de agora que a religião tenta calçar a via crucis de romantismo e poesia. São muitos os que ainda pensam que Jesus, por ser Deus, nada sofreu com as humilhações, os açoites e com a crucificação, e que tudo não passou da mais perfeita encenação da paixão realizada até hoje.

Se por um lado a compaixão pelo sacrifício de Cristo nos induz a atos de fé sem propósito, subestimá-lo nos leva à omissão. E este é um sentimento tão lógico e tão facilmente aceito, que o movimento neopentecostal se utiliza largamente dele. Se Jesus não sofreu, se ele não se humilhou e a sua morte foi simbólica, por conseguinte, eu também não tenho que sofrer, não posso ter perdas e tenho mesmo é que prosperar.

Mas ainda nos resta o sentimento apropriado, daquele que se rejubila com radicalidade do amor de Deus quando sofre junto com seu Filho a dor do Calvário. A manifestação de alegria daquele que tem orgulho do sangue derramado, e que faz dele a razão da sua vida. Ainda existem aqueles que honesta e sinceramente ainda cantam: mas eu amo essa cruz, porque nela Jesus deu a vida por mim pecador.

Quando disse anteriormente que Paulo era muito semelhante a Isaías, não foi a toa. Quando todos o viam Cristo sendo açoitado e humilhado, Paulo pergunta: Onde está morte a tua vitória? Quando as pessoas veem Jesus sendo pendurado e completamente derrotado, Paulo desafia: Onde está inferno o teu poder de destruição? E quando finalmente Jesus morre, ele, assim como o profeta do passado, antecipa a glória final e incontestável do servo: Tragada foi a morte pela vitória.

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