Louvando a incerteza.

Paixão de Cristo de Vincent van Gogh
Leia Isaías 49,1-6.


Bastou uma simples releitura do profeta Isaías para que os evangelistas entendessem que a vida e o ministério de Jesus e o desígnio do servo sofredor cantado por este profeta, sobrepunham-se de forma inacreditável. A semelhança não se limitava apenas aos aspectos que poderiam ser assombrosa exatidão de detalhes. Dentre tantos os profetas levantados por Deus em Israel, porque somente Isaías possuiu esta clarividência?
Primeiramente porque o pensamento teológico de Isaías destacava-se dentre os demais de forma inquestionável. Assim como o apóstolo Paulo, Isaías não teve rivais à altura. Aliás, não podemos dizer ao certo se Paulo foi o Isaías do Segundo Testamento, ou se Isaías foi o Paulo do Primeiro Testamento. Em segundo lugar, este profeta era de origem nobre, era um príncipe de Israel, e somente alguém que conhecia bem a podridão da corte reunia condições para reconhecer que o servo escolhido de Deus para propósitos tão sublimes, tinha que trazer consigo idoneidade e reputação ilibada para executá-los. Isto jamais seria atributo de alguém de sua gente.

Assim como o público a quem primeiramente se dirigiu o texto original dos evangelhos, que vivia em estado de comoção pela destruição do Templo em 70 d. C. pelos romanos, o povo que ouviu a mensagem do dêutero Isaías sofria do mesmo mal. O seu templo havia sido destruído pelos babilônicos em 586 a.C. A mensagem que o profeta queria transmitir através da importante figura do servo, era para que o povo não encarasse o sofrimento com o inocente otimismo de quem diz: a vida é assim mesmo, isto logo vai passar. Não, o mal tem consequências que fogem à razão, e não se pode enfrentá-lo com filosofias, mas com o despojamento de quem arrisca tudo o que é o que possui fundamentado na esperança de que ele pode ter um fim, ainda que este não sobreviva para testemunhar. Os evangelistas encontraram na paixão e morte de Cristo o único argumento para consolar as suas comunidades. O servo de Deus sofre, mas nunca sem um propósito. Foi em uma hora de agonia e dor, e não de regozijo, que Paulo dá o seu grito abafado: Nada pode nos separar do amor de Deus, nem a perseguição, a fome, o perigo, a espada, nem a morte, nem a vida, nem mesmo os anjos.

Apesar da certeza que Paulo e os evangelhos tentam nos passar, de que o final trará um resultado positivo, o elemento particular e essencial na vida do servo é justamente a incerteza sobre si mesmo. Uma vez que a este não é fornecido qualquer antídoto contra a dor e nenhum escudo para que se defenda do mal, a sensação de se estar completamente só na batalha é inevitável. É exatamente por isso que Isaías rejeita o protótipo do destemido guerreiro para extrair do confuso e vacilante homem comum a mais perfeita similaridade do enviado escolhido de Deus. O servo sofredor analisando a sua condição momentânea dizia a si mesmo: Foi em vão que padeci, foi em vão que gastei minhas forças.  Jesus fazendo um balaço dos seus bens concluiu: As raposas tem seus covis, as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.

A contabilidade de Jesus, assim como a do servo, são diametralmente opostas às declarações dos reis, inclusive daqueles que são aclamados pela Bíblia. Basta que leiamos as posses pessoais de Jó e de Salomão para que o contraste salte aos olhos. Para Isaías esse é um modelo que perdeu a sua validade. Nunca funcionou e nunca irá funcionar. A riqueza do rei só pode trazer miséria aos que estão à sua volta. Este, quando muito pode beneficiar uns poucos mais próximos, mas o resultado final vai levar à perda de muitos.

Deus para o seu servo tinha grandes projetos. Ele não viria apenas para satisfazer as necessidades dos que esperavam nele. Não era suficientemente bom para o servo, o propósito messiânico da restauração completa e definitiva de Israel, povo que conhecia e aclamava o nome de Deus. Não era, da mesma forma, bastante para Jesus a salvação dos doze, ou dos setenta dos evangelhos, nem os cinco mil convertidos pelo sermão de Pedro, ou ainda os cento e quarenta e quatro mil do Apocalipse. Apesar desta busca desenfreada pela salvação pessoal que hoje determina os rumos da igreja hoje, os propósitos de Deus são bem mais ambiciosos. Deus, desde que deu liberdade à criação, mantém a firme convicção de querer que o mundo, por livre e espontânea vontade, de volta para si, e sabe muito bem que para isso há de haver sacrifícios.

Ninguém melhor do que o Isaías do segundo Testamento para concluir que tão somente a paixão e morte de Jesus, o Cristo, podem traduzir a real intenção de Deus e reproduzir por inteiro a extensão do sacrifício que seu predecessor do Primeiro Testamento colocara sobre os ombros do servo sofredor. Portanto, por meio do Filho, Deus resolveu trazer o Universo de volta para si mesmo. Ele trouxe a paz por meio da morte do seu Filho na cruz e assim trouxe de volta para si mesmo todas as coisas, tanto na terra como no céu.

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