Morte, ressurreição e vida

A ressurreição da filha de Jairo, Spencer (1891-1959)  
Atos dos Apóstolos 9.36-42

Antes de tudo quero declarar a minha total ignorância sobre o assunto ressurreição, e que não faço referência à ressurreição de Cristo, pois a própria Bíblia dá algumas informações do que vem a ser a transformação de um corpo mortal em um corpo glorificado. Porém, mesmo sem ter a compreensão exata, podemos, pela fé, acrescentar algumas peças ao quebra-cabeças para termos uma visão bastante aproximada deste que é um dos pilares do Cristianismo. Eu quero me referir especificamente ao tipo de ressurreição que o texto de Atos dos Apóstolos nos apresenta, e que é a base da nossa reflexão.

O que entendemos ser a volta de um morto à vida? Além do texto que descreve a ressurreição de Dorcas, o Segundo Testamento traz mais três narrativas sobre o mesmo assunto: A ressurreição da filha de Jairo, a do filho da viúva de Naim e a mais conhecida das quatro, a ressurreição de Lázaro. A minha mente científica não consegue alcançar os detalhes destes milagres em si e há muito já desisti de tentar entender o processo. Mas o que ainda me incomoda é a situação daquele que volta à vida. Como alguém que transpôs a barreira da morte se sente ao estar de volta entre os vivos? Como as pessoas à sua volta lidam com isso? Como seria para ele encarar a sua segunda morte, uma vez que todas estas pessoas, logicamente, voltaram a morrer?

Declarado aquilo que não sei, partamos agora para o que conseguiu extrair dos textos e que vou tentar compartilhar com vocês. 

A primeira lição que podemos tirar após examinar cada um destes textos é: Deus valoriza a vida em cada um dos seus estágios. Ao contrário de nós, que nos indignamos sempre mais com a morte de uma criança do que de uma pessoa de idade, na Bíblia, a ressurreição se dá em qualquer idade. Vemos a ressurreição de uma criança, como é o caso da filha de Jairo, do jovem filho da viúva de Naim, de Dorcas, uma mulher de meia idade, e de um homem de idade avançada, Lázaro. Isso mostra o quanto para Deus toda a duração da vida é importante, e o quanto cada uma de suas fases deve ser valorizada. Uma infância feliz que leve à boa capacitação na juventude, que por sua vez forme um adulto ativo e produtivo, tudo isso para coroar aquilo que Jesus chamou de vida abundante. Uma vida plena em dias e realizações. Diante de tão grandes evidências não há porque imaginarmos que a ressurreição da menina Talita tenha sido de maior valor que a de Lázaro, já idoso. A verdade é que, como todo pai e toda mãe, para Deus não passamos de um grande bando de crianças, pelas quais possui uma paixão tão grande que beira os limites da loucura.

Mas há também um segundo aspecto importante na ressurreição: A compaixão. A narrativa da ressurreição do filho da viúva de Naim nos diz que Jesus moveu-se de íntima compaixão por ela, e disse-lhe: Não chores. O mesmo não aconteceu na morte de Lázaro, quando é ele próprioquem chora. Se para uma desconhecida a compaixão se expressou na forma de um abraço afetuoso, para a família de amigos íntimos, esta mesma compaixão se mostrou através da condolência, ou seja, sentindo a mesma dor.

É sempre bom nos lembrarmos de que os orientais não consideram o coração a sede de suas emoções. Para eles, estão sediadas na região do abdômen. A compaixão de Jesus fora tamanha que suas entranhas se reviraram. Houve uma completa disfunção no organismo de Jesus ao presenciar aquela cena de dor e separação. Foi exatamente onde a ressurreição começou a acontecer. Na atitude estender o braço amigo, de compadecer-se, de importar-se, de colocar-se no lugar do outro. De deixar que o que sofre ocupe o lugar que anteriormente estava ocupado pelo meu ego. A ressurreição começa a acontecer quando cada um se propõe a sentir a dor alheia come se fosse a sua própria. Sem o elemento compaixão não há nem nunca poderá haver ressurreição.

Mas ainda existe um terceiro elemento para que haja ressurreição. Só pode haver ressurreição onde há solidariedade. O texto que fala sobre Dorcas nos faz entender que toda a cidade se mobilizou inconformada com a morte daquela mulher. Como não iam se comover com a partida daquela que para eles era o próprio exemplo de solidariedade. Lucas diz que as mulheres mostravam a Pedro as túnicas e vestidos que ela fazia, e distribuía entre os carentes. Faziam absoluta questão de expor a sua extensa folha de serviços. No caso da filha de Jairo, existe toda uma inquietação por parte dos vizinhos, parentes e amigos questionando o porquê da criança ter morrido. Diz-nos o texto de Marcos que Jesus ficou atento ao alvoroço dos que choravam e pranteavam a morte da menina. Quanto ao jovem filho da viúva de Naim, o povo todo acompanhava o enterro para fora dos portões da cidade. As pessoas deixaram os seus afazeres, a quietude dos seus lares para serem solidários àquela viúva que perdera aquele que talvez fosse o seu único laço familiar afetivo e, muito provavelmente a sua única forma de sobrevivência.

Podemos perceber nestas passagens que a solidariedade está não somente presente, mas consolidando decisivamente o milagre da ressurreição. É na solidariedade das pessoas que a ressurreição encontra o terreno fértil que necessita para se fazer realidade. Uma das cenas mais chocantes dos últimos tempos para mim foi o sepultamento do assassino das crianças de Realengo. As fotos nos jornais mostravam um caixão abandonado no meio do pátio vazio do cemitério. Um enterro que os amigos não estiveram presentes, que não foi lamentado, não foi pranteado e que não contou com a solidariedade de ninguém. O típico exemplo de morte sem qualquer possibilidade de ressurreição. Pelo menos do tipo de ressurreição da qual estamos falando.

Não é à toa que os textos que falam da ressurreição de pessoas são os de maior apelo na Bíblia. Neles que descobrimos o quanto a vida é de fato preciosa. Uma das marcas mais expressivas da plenitude do Reino de Deus é justamente a morte da própria morte. A única morte que ansiosamente devemos esperar. Enquanto esta não acontece e quando não pudermos fazer absolutamente nada para evitá-la é nosso dever minimizar os seus efeitos. Ainda que não consigamos realizá-la de forma concreta, estamos obrigados a promover os símbolos da ressurreição através dos gestos de carinho, de compaixão e de solidariedade. Assim fazendo estaremos trazendo para o mundo real uma das mais estranhas promessas que fez Jesus Cristo: Em verdade, em verdade vos digo: se alguém guardar a minha palavra, não provará a morte, eternamente.

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