Minha é a vingança

Ruínas sobre o monte Megido
Amaldiçoa teu Deus e morre. Job 2,9


Através de uma incomum blasfêmia a mulher de Jó tentava desesperadamente por um basta ao sofrimento infindável de seu marido. Com estas palavras, denominadas pelos teólogos contemporâneos de eutanásia teológica, ela expressou o que havia de mais oculto e mais tenebroso no relacionamento que os antigos mantinham com seus deuses. A ideia de que havia uma permanente ameaçadora vigília sobre qualquer ofensa dirigida ao ser divino, e que tal ofensa seria punida com a morte imediata, era mais que consensual. O mínimo que se podia esperar de um deus, era que agisse como tal: por um lado castigando seus adversários com horrendas maldições, por outro premiando seus adoradores com as mais copiosas bênçãos. Esta também era a palavra de ordem que os líderes religiosos, fossem eles sacerdotes, profetas, xamãs ou magos se utilizavam para exigir sacrifícios e oferendas. Um deus não poderia suportar qualquer palavra ou ação que contestasse a sua origem divina, o que, depois de rescaldado todo o antropomorfismo, era a única coisa que lhe restava.

O cerne da pregação do maior de todos os profetas bíblicos, segundo Jesus, era basicamente este: “Arrependei-vos porque o machado já está à raiz da árvore. Aquele que não produzir bons frutos será arrancado e jogado ao fogo”. João, o batista, desta forma não somente sintetizava a sua mensagem profética, como também delimitava um curtíssimo tempo para o seu cumprimento. A contundência e abrangência de tais palavras provocaram um estado de pânico geral entre o povo e uma profunda preocupação das autoridades, principalmente de Herodes, que viria a ser o principal alvo da condenação do profeta.

Todo o desenrolar desta acirrada contenda mereceria um capítulo à parte, mas o que realmente importa para a nossa reflexão é que o portador da palavra de Deus, fato que próprio Jesus tão bem atestara, fora silenciado, sentenciado e executado por aquele sobre quem mais pesadamente recaia o seu julgamento. Segundo o melhor conceito da época, o que mais se podia esperar de Deus, senão que violenta e prontamente vingasse a morte do seu profeta? Mas os dias foram se passando e todos os que com expectativa aguardavam a inevitável ira vindoura se decepcionaram tremendamente. Contra o adúltero, incestuoso, homicida e profano Herodes, Deus não fez nada. Como poderiam os primeiros cristãos e todos os seguidores do profeta, dali para frente, assimilar e administrar tamanho paradoxo? Deus enviara não apenas mais um profeta, mas fez questão de enviar o maior entre todos os nascidos de mulher para anunciar que o seu Reino de justiça, verdade e amor era chegado. Esta novidade assombrou de tal forma João Batista, que o fez levá-la ao extremo de ameaçar a quem não aderisse a ela sincera e integralmente com flagelos inimagináveis; e vem um iníquo com violência, ódio e mentira e põe fim a este aguardado mistério.

Minha é a vingança, disse Paulo citando o antigo texto de Deuteronômio, para nos ensinar que, quando Deus chamou exclusivamente para si esta prerrogativa, estabeleceu o se e o como aplicá-la. Jesus já havia deixado bem claro que Deus não estabeleceria o seu Reino sobre o cadáver dos inimigos ou vingando-se dos que praticam a iniquidade. Deixou bastante explicito, através do seu modo agir, que abriria mão de tudo, inclusive da afirmação da sua divindade, em favor de ver o Reino de seu Pai tornar-se pleno. Paulo quando escreveu aos filipenses fez uso de um hino muito conhecido pela igreja para sepultar de vez toda a expectativa da ira vindoura sobre os inimigos. Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.

Não cabe a mim fazer ponderações sobre o plano de Deus, mas não tem como não ver que desta forma tudo fica mais difícil. Sou obrigado a reconhecer que a eutanásia teológica dava aos sacerdotes de então um poder de persuasão que lhes conferia relativo sucesso. Sucesso que nos dias de hoje, devido à diversificação da superstição, não seria tão relativo assim. Seria a hora de nos perguntarmos se não é exatamente por isso que as igrejas estão repletas? Não é deste modo que o evangelismo televisivo está ganhando a cada dia mais canais e mais espaço na mídia?

Hoje se comemora o dia de São Jorge, sendo que na cidade do Rio de Janeiro comemora-se mais ainda, pois é feriado municipal. Uma data que evoca no coração dos fiéis ao santo, que também lotarão igrejas, a mais plena convicção de que o mal está prestes a ser vencido, e que um guerreiro poderoso e bem armado estará à frente desta expressiva vitória. E é aqui que o evangelho complica todo o ministério cristão. Como dizer para essa gente que, apesar de estar vivo e atuante esse mal já foi vencido. Que foi vencido não por um guerreiro com poder para matar, mas por um cordeiro que se entregou voluntariamente à morte? Com que palavras dizer que o mal foi vencido, não pelo poder, mas sim pelo amor?

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