Ele é Deus e você, quem é?

Nabucodonosor, Romanino (1485-1566)
Nunca me deixei impressionar pelas descobertas que tentam de todas as formas colocar a Bíblia contra a parede, mas sei também que numa ou noutra questão sempre haverá confrontos entre fé e a ciência. No entanto, uma bela covardia se faz quando na Bíblia é confrontar a cosmo visão de um homem que viveu na Idade do Bronze ou na Idade do Ferro com o aparato cientifico e tecnológica dos dias de hoje. Ninguém compara a Bíblia ao Código de Hamurabi, ao Zend Avesta, que é o livro sagrado do Zoroastrismo ou mesmo ao Livro de Sair Para a Luz, como era originalmente chamado o Livro dos Mortos dos egípcios, que são seus contemporâneos.

A visão do escritor bíblico, por melhor intenção que tivesse, jamais poderia supor que suas palavras chegariam tão longe e que um dia seriam um texto sagrado e reverenciado por mais da metade da população mundial. A despeito disso ela é hoje colocada em cheque contra a última palavra da ciência moderna, coisa que os nosso inspirado escriba no passado também não teria como saber e se preparar para a disputa.

Não quero voltar a bater na tecla de que a Bíblia nunca tratou de ciência e sim de experiências comuns de um grupo de pessoas que tinham um Deus em comum. Mas que fique registrado que não fui nomeado por Deus como defensor do texto bíblico. Tenho a plena convicção de que ele é suficientemente bem estruturado para defender-se a si mesmo. Mas que fique registrado também meu repúdio a esse vandalismo inócuo que muitos espertalhões se valem para conseguirem lucrar com suas “descobertas” mirabolantes.

Ainda bem que disse isso, porque o que eu quero dizer de fato é que, apesar de reconhecer que este pequeno livro contém a experiência mais absoluta fantástica que a mente humana já produziu, existem alguns trechos que se eu pudesse mudaria. Eu mudaria o final do livro de Jó e tiraria aquele desfecho triunfante. Tenho pra mim que um livro que trata de um tema tão instigante, não pode terminar de forma tão simplista. Mudaria também a parábola do Filho Pródigo. Quando contada dessa maneira pode-se muito bem concluir que não importa o que fazemos da nossa vida, no final tudo vai terminar bem, assim como terminou para o filho devasso.

Mas talvez a mudança mais ousada e que mais controvérsia poderia causar é a que narra o momento anterior à oração de Azarias que está contida nos textos do Calendário Litúrgico de hoje. Pode ser revista no capítulo três do livro de Daniel. O embate entre a prepotência de Nabucodonosor e seu exército poderosíssimo, e a convicção inabalável dos três amigos de Daniel diante de uma fornalha de fogo ardente.

A história é mais ou menos assim: Este rei mandara construir um monumento de ouro para que fosse adorado como ídolo. Não se sentindo realizado com o seu dispendioso brinquedinho de ouro, assinou um decreto ordenando que todas as pessoas que estivessem dentro dos muros da cidade, independentemente da sua nacionalidade ou religião, deveriam curvar-se diante do seu novo ídolo, sempre que o som de cada um dos diversos instrumentos escolhidos por ele fosse ouvido. E a punição imposta aos infratores do seu decreto seria queimar numa fornalha especialmente construída para esse fim.

Ninguém era tonto o bastante para descumprir propositalmente tal decreto. Ninguém não, num cantinho à parte havia três judeus bem impertinentes, que decidiram por conta própria não se curvarem, fato que chegou imediatamente aos ouvidos de Nabucodonosor. Por essa ofensa grave, o rei os colocou diante de um assembléia na tentativa de intimidá-los. Depois das processuais perguntas fez-não-fez e se não fez o porquê, o rei enfurecido ameaça jogá-los na fornalha, porém, não mais na fornalha original, mas setuplicada da sua potência. O número sete nos dá conta de quanto era perfeito esse aparato de morte.

É este o ponto que eu gostaria de ir mais fundo: no diálogo entre Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, os amigos de Daniel, e Nabucodonosor. Aqui se concentra todo drama que o autor quis deixar transparecer. Aqui é o ponto onde a situação deixa de ser uma questão pessoal entre o rei e os rapazes, e passa ser uma luta entre deuses. O deus da opressão, da intimidação e do poder bélico que está visivelmente presente no ídolo de ouro e o Deus libertador que se revela unicamente no íntimo da consciência dos três judeus.

A pergunta que Nabucodonosor faz completamente convicto da sua superioridade é de capital importância, porque ela não desafia apenas o Deus de Israel, nação a quem havia recentemente destruído, mas a todo e qualquer deus que pudesse existir. E vou jogá-los na fornalha, que deus os livrará das minhas mãos? Convicção essa que é muito aumentada quando os algozes babilônicos que cumpriram a ordem foram incinerados, mesmo à considerável distância. Mas a resposta dos rapazes conseguiu ser ainda mais fulminante que a fornalha sete vezes aumentada. Se o nosso Deus é Deus, é um assunto que nós não vamos nem começar a discutir. Mas que uma coisa fique certa: se quiser nos livrar, ele vai nos livrar da tua mão, do teu exército da tua fogueira, do teu ídolo e de tudo mais inventares. Se porventura, ele não quiser nos livrar, nós vamos morrer. Mas isso não vai mudar nada, ele vai continuar sendo Deus e tu apenas um tirano idiota iludido com o poder efêmero.

Dificilmente algum outro rei na história da humanidade tenha tomado um tapa na cara tão bem dado. E é unicamente por esse motivo que eu disse que mudaria este texto.Para min não interessa o final. Se Deus os livrou ou não é apenas um detalhe diante de tantas outras maravilhas que Deus já havia feito até então. Mas os rapazes conseguiram jogar por terra toda a arrogância de um dos mais poderosos monarcas que o mundo já conheceu. Nesta contingência o livramento vem em segundo plano.

Muito mais do que dos milagres salvadores, a fé cristã, na realidade, tem se alimentado do testemunho de homens e mulheres que desafiam o mundo contrário a Deus, com o risco das próprias vidas. Dos grandes heróis da fé pouco se pode falar, além das suas angústias e sofrimentos por amor a Deus e a seu Cristo. Propriamente dos seus livramentos não há quase nada registrado. O escritor do livro de Hebreus faz desfilar diante dos nossos olhos uma extensa lista de tragédias e infortúnios que acometeram um sem número de cristãos. A estes ele dedica uma homenagem que nunca ousaríamos fazê-lo. Ele não os chama de santos, não os bestifica e muito menos os considera especialmente ungidos. Ele diz que estes foram simplesmente homens e mulheres dos quais o  mundo não era digno.

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