De ti fluirão rios

Ezequiel, Michelangelo 
O seu fruto será comestível, e suas folhas medicinais. Leia Ez 47,1-12

Este texto vislumbra um rio nascendo dentro do templo de Jerusalém e desaguando em pleno deserto oriental. Nesta visão profética Ezequiel descreve com riqueza de detalhes que a função precípua do rio que sai do templo nada mais é do que ininterruptamente fluir elementos básicos que propiciem a vida. Em uma alusão aos quatro rios que regam o Jardim do Éden, o rio de Ezequiel possui quatro estágios, cada um representando o volume d’água, assim como cada rio citado pelo Gênesis. Cada estágio possui uma intensidade apropriada para cada situação. Desde aquele cujas águas chegam aos tornozelos, até o caudaloso que não se consegue atravessar a pé, o templo provê água suficiente para cada necessidade.

Esse cuidado que Ezequiel teve em narrar esta característica do rio, vai ao encontro das palavras de Dom Helder Câmara referindo-se à Campanha da Fraternidade, esta inspiradíssima obra que a Igreja Católica Romana realiza há 50 anos no Brasil, no período da Quaresma. Embora seja creditada a muitos e plagiada por outros tantos, as palavras originais de Dom Helder diziam assim: Ninguém é tão pobre que não possa dar e ninguém é tão rico que não possa receber. Está claramente declarado aqui que a igreja é para todas as pessoas, não importando a sua condição social, cultural etc. Não importa nem mesmo a religião. O que pode parecer esquisito hoje é, contudo, uma ideia anterior à construção do templo. Quando alguém pensou em construir o templo, Deus disse logo: A minha casa será chamada casa de oração e será para todos os povos.

Enquanto o rio segue o seu curso ensinando coisas novas e corrigindo velhos vícios, aproveita para reflorestar o árido deserto às suas margens. E é aqui que mais uma vez a visão de Ezequiel desafia conceitos e derruba preconceitos adquiridos desde então. O profeta nos diz que às suas margens nascem todos os tipos de árvores, determinando que aquilo que sai do templo de Deus seja a expressão do seu amor irrestrito, que alcança e que dá vida a todo tipo de pessoas. Mais do que simplesmente matar a sede do deserto, o rio precisa se tornar uma garantia de que a vida será plena. Nunca murcharão e jamais deixarão de dar fruto, disse Deus através da boca do profeta.

A um passo adiante do Éden, onde havia alimento farto e fácil, Ezequiel vê que o rio facilita muito, mas exige que a atividade do homem se faça presente. Ele diz que o rio está repleto de peixe, mas que é preciso que os pescadores estendam as suas redes. O rio não está aí para dar moleza pra ninguém, pelo contrário, está para denunciar as leis assistencialistas que são, como se dizia antigamente, para inglês ver. Essa expressão que nasceu do compromisso que o governo brasileiro firmou com os ingleses, que exigiam o fim do tráfico de escravos, mas que nunca foi cumprido, e o espelho fiel dos programas que prometem acabar com a fome e a miséria, mas que no fundo acabam em preguiça e vagabundagem.

Mas o rio chega ao seu final desaguando no meio ambiente cuja possibilidade de vida é mais improvável: o mar Morto. Contra todas as expectativas, o rio que nasceu no templo dá por encerrado o seu curso, mas não sem antes fazer renascer aquilo que se julgava definitivamente morto. O ambiente mais inóspito da terra é o objetivo final. O rio de Deus até se presta para resolver os problemas pontuais e ocasionais que se apresentam, mas sua ambição é muito maior que realizar curas, reconciliações ou mudança de mente. Sua meta final é, como dizem os cariocas, onde a “chata tá quente”, onde “a cobra está fumando”, onde “o bicho tá pegando”, ou seja, o confronto com a última barreira do mal.

Ao desembocarem aí estas águas, o mar ficará saneado, e haverá vida onde quer que chegue a corrente. Estas palavras do profeta me lembram João Wesley quando declara suas reais pretensões evangelísticas: Dai-me cem homens que nada temam senão o pecado, e que nada desejam senão a Deus, e eu abalarei o as estruturas do inferno.

Como observação final, parece que o profeta de repente muda de mar. O rio que nasce no templo é poderoso o bastante para dar vida ao mar Morto, mas seu potencial é muito maior. Se o mar Morto já era suficientemente grande para assombrar aqueles que pretensiosamente chamavam o pequeno lago de Genesaré de mar da Galiléia, tento imaginar o que passou pela cabeça daquele povo quando o profeta mudou o foco da ação de Deus para o grande mar, referindo-se ao Mediterrâneo. Talvez, quem sabe, para Ezequiel o inferno não fosse o limite extremo? Quem sabe se obediente à palavra de Deus para ele não sonhasse com objetivos ainda maiores? Quem poderia dizer, senão ele próprio, se o céu era o seu limite? O livro de Jó corrobora bem com esse sonho, quando diz que Deus é tão absoluta perfeito que nem mesmo o céu é puro aos seus olhos.

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