O perfume e os pobres

Maria é a chave, The Jesus Storybook Bible
Leia João 12.1-8.

Texto do reverendo Luiz Carlos Ramos para o Quinto Domingo na Quaresma.

Seis dias antes da Páscoa, Jesus foi ao povoado de Betânia [que significa “casa dos pobres”]. Era lá que morava Lázaro, a quem ele tinha ressuscitado. Seus amigos e amigas prepararam um jantar para receber Jesus. Durante o jantar, Marta, a diaconisa, ajudava a servir os convidados, e Lázaro, a quem Jesus amava, era um dos que estavam à mesa fazendo-lhe companhia.

De repente chegou Maria com um frasco cheio de excelente perfume, feito de nardo puro [uma planta rara nativa do Himalaia]. Ela verteu o perfume generosamente e massageou os pés de Jesus, depois começou a enxugá-los com os seus cabelos. Por causa disso a casa toda ficou perfumada.

Só que Judas Iscariotes, justo aquele discípulo que haveria de trair Jesus, disse: — Que desperdício! Esse perfume vale mais do que o salário de um ano inteiro de um trabalhador. Por que não foi vendido, e o dinheiro, dado aos pobres?

Judas disse isso da boca pra fora, porque no fundo não ligava a mínima para os pobres. Desconfiava-se que, com a desculpa de tomar conta da bolsa de dinheiro, costumava tirar do que punham nela, isso sim.

Então Jesus respondeu:
— Deixe Maria em paz! Ela está preparando meu corpo para o sepultamento. Quanto aos pobres, todos os dias estão entre vocês aos milhares, mas eu não estarei com vocês por muito tempo.

Várias são as personagens mencionadas no episódio que narra a unção de Jesus em Betânia. O próprio lugar onde isso acontece já é em si enigmático: Betânia, a casa dos pobres. Entram em cena, além de Jesus, a diaconisa Marta, amigos queridos de Jesus, entre eles Lázaro, a quem o Mestre reerguera da morte, e principalmente Maria e sua contra-parte na narrativa, Judas Iscariotes.

Maria é de uma prodigalidade surpreendente. Para Judas, ela se parecia mais com o Filho Pródigo do que com uma verdadeira discípula: perdulária, esbanjadora, desperdiçadora, extravagante, irresponsável. Mas para Jesus, o gesto de Maria era o mais nobre dos gestos, repleto de delicadeza, graciosidade e amor sem medida, sem interesses nem mesquinhez.

Tendo consciência do que o esperava em Jerusalém, a cidade que mata os profetas, a estadia com os pobres de Betânia foi, para Jesus, literalmente, um bálsamo revigorador, que o preparou para o caminho da paixão e da cruz.

Judas, supostamente preocupado com a gestão das economias e o cuidado dos pobres, cometeu pecado dos mais graves: esqueceu-se de ser gentil, bondoso, afável, amável. Optou pelo discurso rancoroso, desrespeitoso, ofensivo e depreciativo.

Como muitos, Judas era incapaz de reconhecer a essência do Evangelho de Jesus, a verdadeira Teologia da Graça de Deus. Porque Graça não tem preço, o arrazoado de Judas não fez sentido pra Jesus.

Entre o discurso de Judas e o gesto de Maria, Jesus entendeu e acolheu este último.
Os pobres, como Jesus, o principal dentre eles, preferem uma casa perfumada por gestos gratuitos de amor do que empesteada pelo simulacro e pelo rancor. Jesus escolhe o aroma da delicadeza dos que amam desarmadamente, porém abstém-se do ruído grosseiro dos que se remoem desalmadamente.

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