Escolha e livre-arbítrio II

A Iluminação X O grande despertar, autor não identificado
Outra das declarações esdrúxulas é aquela que diz que escolha e livre-arbítrio não são a mesma coisa. Pode não parecer tão esdrúxulo pelo simples fato de que não podemos escolher qualquer coisa. Eu não escolho ser rico, bonito ou ter 1,90 m de altura. Tanto a escolha quanto o que chamamos de livre-arbítrio estão condicionadas ao que os americanos chamam de potential universe, ou seja, o nosso raio de ação.

Contudo, ao querer descaracterizar o livre-arbítrio como uma escolha voluntária, os seus opositores se apegam no fato de que Deus tem um plano rígido, em que cada fato ou circunstância já foi previamente por ele traçado e nada nesse mundo pode alterá-lo. Quanto a isso podemos refletir sobre um conceito que há muito tempo circula entre nós. O de que somente há somente duas religiões no mundo: a que o homem se move em direção a Deus, e aquela em que Deus se move em direção ao homem. E ambos podem ser encontrados entre os calvinistas, no arminianos e no pelagianos.  E até mesmo aqui se manifesta o livre-arbítrio, pois durante o transcurso de nossa vida este conceito também pode manifestar várias vezes.

Muito embora o termo esteja mais do que vilipendiado, pois se transformou em práticas quiromantes, Paulo dizia que a profecia possui três finalidades específicas: consolar, exortar e edificar. E é nesta imagem que Paulo traça que eu quero orientar esta meditação.

Quando somos recém-convertidos, a ideia de um Deus que vem em nossa direção não pode ser inequívoca. Uma das contribuições de Wesley mais importantes para a fé cristã foi a doutrina da Graça Preveniente. Da graça que começa a agir em nós antes mesmo que esbocemos qualquer intenção de aceitarmos o evangelho. A única coisa que não está na mesa de negociação, e não depende de escolha, é o reconhecimento do nosso pecado. Paulo, em I Tm 1.15, nos dá uma dimensão da seriedade deste reconhecimento: O ensinamento verdadeiro e que deve ser crido e aceito de todo o coração é este: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o pior. Esta parte podemos chamar de edificação.

Todos sabemos que a vida na fé está repleta de percalços e dificuldades. Assim que assumimos a mente de Cristo, o mundo, que era conivente e simpático a tudo que fazíamos, se transforma em nosso maior perseguidor. Muitas vezes também alguns problemas particulares fazem com que a nossa fé cambaleie. Acreditamos que Deus é Senhor do Universo, e que nada acontece sem o seu conhecimento, mas quando estamos doentes queremos que ele esteja ao nosso lado na cama. É a alternativa da profecia que Paulo chamou de consolação.

Mas a necessidade de prosseguirmos em direção à perfeição cristã não permite que fiquemos indefinidamente nesta situação. Eu já disse da minha indignação quando vejo homens e mulheres adultos tocando e cantando louvores na frente da congregação. O que vou dizer vale também para muita gente que canta em corais e principalmente para os “levitas”. Repetir mantras que Deus é bom, e que não há outro igual a ele não transforma a índole pecaminosa do mundo à nossa volta. É aí que entra a segunda etapa da conversão: Caminhar sem hesitação em direção ao Reino que está preparado desde a fundação dos séculos, e isso exige abnegação, renúncia e obediência nas escolhas mais terríveis de nossa existência.


Não sei exatamente quando foi um pastor presbiteriano que deu uma declaração que para mim põe termo a essa polêmica entre João Calvino e Jacó Armínio. Ele disse mais ou menos isso: o cristão deve ser arminiano, ou seja, gozar de livre arbítrio da porta da igreja para fora, mas ser totalmente calvinista da porta para dentro. Antes da conversão tudo é permitido, e a liberdade de escolha está sempre à disposição. Mas uma vez que fomos libertos e fazemos a escolha pelo senhorio de Cristo, as nossas escolhas ficam condicionadas à sua vontade. É mais ou menos com dizia um chefe que tive no passado: quando eu mandar alguém pular, eu quero me perguntem apenas uma coisa: a que altura, nada mais.

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