Porque os judeus pedem sinais

Travessia, Doré
Tu andaste pelo meio do mar, abriste caminho no oceano profundo, mas ninguém viu as marcas dos teus pés. Salmo 77.19

O principal argumento dos criacionistas, agnósticos e ateus contra o Criacionismo ou mesmo contra a encarnação é a falta de provas científicas que credencie tais eventos. Em contrapartida, a busca aficionada por provas, evidências ou mesmo indícios tem transformado os cientistas em sacerdotes de uma nova religião repleta de dogmas, e os novos ateus são seus coroinhas fanáticos, completa Anthony Mills.

Desde de que Auguste Conte formulou a doutrina de toda crença religiosa não passa de mera infantilidade, a balança que pesa os conceitos da ciência e da fé tem cada vez mais pendido para o lado dos cientistas, inclusive entre os adeptos da fé, e mais crescentemente ainda entre os seguidores da fé cristã.

Não pretendo nesta reflexão voltar aos meus argumentos científicos que combatem o tipo de ciência que confronta a fé. Hoje já dispomos de elementos suficientes para colocar toda a Teoria da Evolução em cheque e rebater, até mesmo com a própria ciência, os seus postulados mais taxativos. Gostaria de poder falar apenas daquilo que a fé apresenta em defesa de si mesma. Melhor dizendo: deter-me exclusivamente no texto bíblico e dele retirar todos os elementos que fundamentam a nossa fé.

O salmista no Salmo 77 nos apresenta um poderoso argumento da não necessidade de provas para acreditar no que acreditamos e como acreditamos no que acreditamos. A experiência vivida pelo povo hebreu na sua libertação do cativeiro egípcio, por mais contestada que tenha sido ao longo de alguns milênios, não tirou daquele povo e nem dos herdeiros da fé que eles instauraram o menor grau de intensidade na grandiosidade do feito. Mais importante ainda é que, a despeito de ser uma das histórias mais absolutamente fantásticas já narradas, o fato desse povo não se enaltecer como o herói que protagonizou o evento, mas que o atribuiu exclusivamente a uma ação voluntária, reconhecidamente imerecida e inexplicavelmente amorosa de Deus.

O hebreu que viveu a experiência do Êxodo não ficou olhando para o fundo do oceano buscando provas de que era mesmo o seu Deus quem havia aberto o mar, como também anteriormente não procurou saber como Deus havia derrotado e ridicularizado, um a um, os deuses do Egito.

Essa se constituía na principal crítica que Paulo, o apóstolo, fazia aos judeus do seu tempo. Estavam todos em busca de sinais astronômicos que comprovassem que o Messias teria vindo ao mundo na presença de um galileu de família pobre e sem uma educação formal. Para que estabelecêssemos um paralelo simples teríamos que descobrir quais foram as provas Jesus apresentou em favor de si mesmo? Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados. Bom, mas isso tem acontecido, de uma forma ou de outra, com mais ou menos intensidade, em todos os tempos, em todas as religiões e em todos os lugares. Faltava ainda a prova cabal. Faltava mostrar o povo que antes vivia escravo e que agora era livre. Faltava uma experiência coletiva de fato. Faltava algo que não precisasse ser provado porque era mais que evidente. E é justamente esse algo que Jesus apresenta no final do seu discurso: e aos pobres é anunciado o evangelho.

Falta apenas, pelo menos no que diz respeito a mim, a convicção do salmista. Falta deixarmos de ser os judeus modernos, que andam em busca de sinais, e fundamentarmos a nossa fé nos sinais de um novo tempo. Um tempo de libertação de todo mal e de todo pecado que escraviza e não em provas, por maiores que sejam as suas evidências. Seria a hora propícia de confrontarmos toda essa fé que está depositada na ciência, como a dona absoluta da verdade, com a simples de alguém que vê nos mais singelos sinais a presença de algo tão avassalador que nem os mais proeminentes cientistas munidos das mais avançadas tecnologias podem sequer supor existir. Para tanto é necessário entendermos que o fator determinante é andarmos por fé e não por evidências. Na certeza de que um dia eu fui liberto da escravidão do Egito para que o evangelho pudesse assim me alcançar. 

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