De volta à raiz

Do tronco de Jessé sairá um rebento, e das suas raízes, um renovo. Naquele dia, recorrerão as nações à raiz de Jessé que está posta por estandarte dos povos; a glória lhe será a morada. Isaías 11.1 e 10.

Como já tenho um pouco mais de trinta anos, não é essa a primeira crise política que vejo assolar povo brasileiro. Com dez anos era acordado de madrugada para ir para a fila conseguir comprar um quilo de feijão ou um pacote de açúcar. Vivi bem de perto as atrocidades cometidas pelo governo militar que por vinte e um anos se empenhou em tornar o Brasil aquilo que ele é hoje: um país sem uma classe política digna, com um povo sem memória, e o começo de uma corrupção desenfreada.

Tenho alguns exemplos para calçar estes argumentos. Carlos Lacerda, o primeiro governador do Estado da Guanabara, também era proprietário da Tribuna da Imprensa, um jornal que fazia frente ao governo de Getúlio Vargas, e que depois passou a bater forte também nos desmandos da Ditadura Militar. Pois bem, seu jornal foi à falência por falta de recursos financeiros, por falta de publicidade e por divulgar propaganda enganosa do governo federal. Se Lacerda fosse um filho do Lula, hoje seria dono do New York Times, ou da BBC de Londres.

Por falar em imprensa estrangeira, a revista alemã Der Spiegel denunciou o desvio de 30 milhões de dólares, a corrupção, a incompatibilidade técnica e a tecnologia ultrapassada das Usinas nucleares de Angra dos Reis.

O surgimento de partidos sem ideologia e atrelados a qualquer direção política que o país assumisse nestes últimos cinquenta anos, também é obra dos nossos gloriosos generais.

Parece que nada mudou no nosso cenário, mas mudou sim. E mudou muito. E essa mudança não se de apenas na placidez com que o povo aceita toda podridão e escárnio a que é submetido, mas também na igreja que não é mais a voz do povo oprimido e sacaneado.

Quem hoje podemos dizer que é minimamente semelhante a Dom Helder Câmara, que desde 1952, quando foi consagrado bispo, nunca deixou de confrontar os poderosos e de colocar ao lado do povo sofrido. Quando novamente a Igreja Metodista terá uma lista com nada menos que dezoito mortos e torturados e uma infinidade de perseguidos por um regime político?

Quando teremos bispos como Dom Pedro Casaldáliga que sofreu ameaças de morte até de políticos mexicanos, pois ao apoiar a Revolta dos Chiapas deu uma declaração que até hoje a igreja não digeriu: quando o povo pega em armas deve ser respeitado e compreendido. Isso para não falar das cinco vezes em que esteve preso pela ditadura brasileira por defender o arcebispo Dom Evaristo Arns.

Ah, Dom Paulo Evaristo Arns, eu que não sou católico tenho imenso orgulho desse grande cristão. O principal responsável pelo fim da tortura, colocando-se a si mesmo como passível de sofrê-la. Criou a Comissão de Justiça e Paz, juntamente com sua irmã, a freira Zilda Arns, a única mulher brasileira indicada ao prêmio Nobel, a Pastoral da Criança.

O que temos hoje é uma famigerada bancada evangélica que é dirigida pelo maior ladrão, evangélico ou não, que já tomou assento naquela casa, igrejas tradicionais e ocasionais atoladas até o pescoço na corrupção e uma multidão de fiéis que vai à igreja todos os domingos para pedir que Cristo apresse a sua volta, porque já não aguentam mais tanto sofrimento.

Alguém aí está de brincadeira. Assim como fez no passado com Israel, penso, e até tremo de medo quando penso, que Deus está prestes a começar tudo novamente a partir da raiz que não se corrompeu.

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