A inversão da profecia

Como pasmaram muitos à vista dele (pois o seu aspecto estava mui desfigurado, mais do que o de outro qualquer, e a sua aparência, mais do que a dos outros filhos dos homens), assim causará admiração às nações, e os reis fecharão a sua boca por causa dele; porque aquilo que não lhes foi anunciado verão, e aquilo que não ouviram entenderão. Isaías 52,14s
Profeta Isaías, Marc Chagall Chagall
Isaías foi um dos pioneiros em anunciar o “abestalhamento” generalizado. O conhecidíssimo capítulo 6 de seu livro; aquele que começa com a sua visão nebulosa do Senhor no templo: eu vi o Senhor sentado em um alto e sublime trono; aquele em que ele por si mesmo se voluntaria ao sacerdócio profético: eis-me aqui, envia-me a mim; mas é também aquele em que ele fica pasmo diante do objetivo real de sua missão: torna insensível o coração deste povo, endurece-lhe os ouvidos e fecha-lhe os olhos, para que não venha a ver com os olhos, a ouvir com os ouvidos e a entender com o coração, e se converta e seja salvo.

Não é preciso qualquer dom especial de discernimento de profecia para perceber que esta é uma profecia que ainda está vigente em nossos dias. Digo isso com absoluta convicção de que ela, curiosamente, está funcionando hoje mais dentro do que fora da igreja. Quando vejo pastores e líderes religiosos usarem a Bíblia para escamotear as perversas maquinações que encheria de espanto o próprio Maquiavel, percebo que Isaías está falando mais enfaticamente para os cristãos do que para os não cristãos ou ateus. Porque uma coisa é errar por ignorância ou por desconhecimento da mensagem, outra muito diferente e tentar, pela mensagem bíblica, transformar o errado em certo, o amargo em doce, o mal em bem.

Decisivamente esta é uma mensagem dura de anunciar. Tão dura que o profeta manifesta de pronto a sua indignação: Até quando, Senhor? Até quando? E Deus lhe respondeu: Até que as cidades fiquem desoladas, as casas sem moradores e a terra toda assolada. Não o primeiro, mas o segundo Isaías experimentou o sabor amargo dessas palavras. Viu sua cidade ser desolada, as casas ficarem sem moradores e a terra toda assolada. Viveu o suficiente para ser testemunha do que a História nos relata: que o povo de Israel foi o que mais sentiu o peso da maldição babilônica. As nações pagãs à sua volta foram também invadidas, mas nenhuma delas foi tão devastada.

Se o primeiro Isaías profetizou o que o segundo Isaías testemunhou, coube ao terceiro Isaias a missão de traduzir as implicações e o desdobramento que este incidente tem a revelar para as gerações futuras. E as suas palavras são o nosso texto de hoje. O texto diz em alto e bom tom que em Jesus, na sua mais degradante aparência, naquilo que de forma precária e mais humilde o representa, na desfiguração de qualquer sinal de honra e poder, ou seja, nos pequeninos do Senhor, está visão que fechará a boca dos reis e causará espanto entre as nações. E é aqui que profecia do primeiro Isaías toma um sentido inverso: porque aquilo que não lhes foi anunciado verão, e aquilo que não ouviram entenderão.

Dando finalmente um desfecho de esperança para a inquietante pergunta do “até quando” do capítulo 6, a herança profética dos “Isaías” acende uma luz para um mundo que vive nas trevas da completa ignorância de Deus. Parece mesmo que se acende uma luz para os de fora, mas cuidado. Para nós, “os de dentro”, está destinada a mesma a boa e velha conversão de sempre, sem novas visões e sem novas mensagens.

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