O que é DESEJO? I

Davi e Betsabá Jan Massys
Para o budismo a perfeição suprema é “matar o desejo”. Como os homens da Bíblia, mesmo os mais próximos de Deus, parecem afastados de tal sonho! A Bíblia, pelo contrário, está repleta do tumulto e do conflito de todas as formas de desejo. Sem dúvida ela está longe de aprová-las todas, e os desejos mais puros tem que passar por uma purificação radical, mas é assim que eles adquirem toda a sua força e conferem à existência humana todo seu valor.

O desejo de viver
Na raiz de todos os desejos do homem está sua indigência essencial e sua necessidade fundamental de possuir a vida na plenitude e na eclosão do seu ser. Este dado natural pertence à ordem das coisas, e Deus o consagra. A máxima do Sirácida: Não te prives da felicidade presente, nada deixes escapar dum legítimo desejo (Si 14.14) não exprime a mais elevada sabedoria bíblica; contudo ela é, se não canonizada como um ideal, pelo menos pressuposta como uma reação normal por Jesus Cristo, pois, se ele sacrifica a sua vida, é ainda para que as suas ovelhas: tenham a vida e a tenham em abundância (Jo 10.10).

A linguagem da Escritura confirma esta presença natural e este valor positivo do desejo. Muitas comparações evocam os desejos mais ardentes: Como a corça anseia pela água viva (Sl 42.4), como os olhos duma serva fixos na mão da sua senhora (Sl 123.2), mais que um vigia esperando a aurora (Sl 130.6), faze-me ouvir o som da alegria e da festa (Sl 51.10). Mais de uma vez, os profetas e o Deuteronômio baseiam suas ameaças ou suas promessas nas aspirações permanentes do homem: plantar, construir, desposar (Dt 20.5ss; 28.30; Am 5.11; 9.14; Is 65.21). Mesmo o ancião, a quem Deus "fez ver tantos males e aflições”, não deve renunciar a esperar que ele venha ainda a: alimentar a sua velhice e consolá-lo (Sl 71.20s).

As perversões do desejo
Por ser algo essencial e inextirpável pode o desejo ser para o homem uma tentação permanente e perigosa. Se Eva pecou, foi por se deixar seduzir pela árvore proibida, que era: boa de comer, agradável aos olhos, aprazível de se contemplar (Gn 3.6). Por ter assim cedido ao seu desejo, a mulher será doravante vítima do desejo que a impele para o seu marido e estará sujeita à lei do homem (Gn 3.16). Na humanidade, o pecado é como um desejo selvagem pronto a dar o salto e que é preciso conter pela força (Gn 4.7). Esse desejo desencadeado vem a ser a cobiça ou concupiscência, “concupiscência da carne, concupiscência dos olhos, soberba da riqueza” (I Jo 2.16) e seu reinado sobre a humanidade é o mundo, reino de Satanás.

História do homem
A Bíblia está repleta desses desejos que arrastam o pecador. A palavra de Deus descreve suas consequências funestas. No deserto, Israel, sofrendo de fome, em vez de se alimentar da fé na palavra de Deus (Dt 8.1-5), só pensa em lamentar as carnes do Egito e em atirar-se sobre as codornizes. Os culpados perecem, vítimas da sua concupiscência (Nm 11.4-34). Cedendo a seu desejo, Davi se apossa de Betsabá (II Sm 11.2ss), desencadeando uma série de ruínas e pecados. Por ter cedido, a conselho de Jezabel, a seu desejo de despojar Nabot de sua vinha, Acab condena à morte a sua própria dinastia (I Rs 21). Os dois anciãos desejam Susana a ponto de perderem a noção das coisas (Dn 13.8s.20 – texto encontrado apenas na Vulgata) e pagam com sua vida esse pecado.

Mais categoricamente ainda, a Lei, visando o coração, fonte do pecado, proíbe o desejo culposo: Não cobiçarás a casa... a mulher... do teu próximo (Ex 20.17). Jesus irá revelar o alcance dessa exigência: Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela. (Mt 5,28). (continua)

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