Querer glória é ser vaidoso?

Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.
Salmo 19, C. S. Lewis
Leia Salmos 19.

Texto do rev. Jonas Rezende.

Para a maior glória de Deus - é o lema da Companhia de Jesus. E os jesuítas, de diferentes maneiras, disseminaram essa convicção pelo mundo todo. Muitas vezes, o lema era citado, mas a glória ambicionada não era propriamente a glória de Deus. Tanto que, nesses dias sepultados, que hoje já não contam mais, a ordem de Santo Inácio de Loiola foi expulsa de países católicos, como Portugal e Espanha. E mesmo do Brasil.

Mas, o que significa glória de Deus! Quando eu era rapazinho, influenciado por um ideário não-cristão, cheguei a achar que Deus tinha uma infinita vaidade, para desejar ou receber as glorificações litúrgicas. Foi com minha mãe que aprendi a deficiência das traduções em geral. E que era preciso mergulhar na mentalidade da Bíblia, para entender que glória, nos textos sagrados, nem remotamente lembra vaidade.

Só mais tarde, cursando Teologia, a referência à glória divina ficou muito clara para mim. Tomando o primeiro verso do poema de Davi, podemos desmanchar essa falsa concepção de glória.

De duas maneiras diferentes o salmista diz a mesma verdade: os céus proclamam a glória de Deus. Diz depois: o firmamento anuncia as obras ou o trabalho de suas mãos. Se as duas frases dizem a mesma coisa - e dizem -, glória de Deus é o mesmo que o trabalho de suas mãos. É isso. Para a Bíblia, glória é trabalho. Nada a ver com vaidade. Pelo contrário.

Jesus, que se identifica com o Servo sofredor de Isaías, afirma no Evangelho: meu Pai trabalha até agora, e eu também trabalho. E quando o Cristo pede: glorifica o teu filho, para que o filho te glorifique, com a glória que tive antes da fundação do mundo, refere-se à glória como trabalho, serviço, ação. Até porque cultos e liturgias glorificadoras não poderiam acontecer.

Gabriela Mistral tem uma bela página em que fala da Natureza como um desejo, um impulso de servir. E enumera: serve a nuvem, serve o vento, serve a chuva... Deus, ele mesmo, poderia ser chamado aquele que serve.

Jesus interpreta como um trabalho incessante a sua missão: o filho do homem não veio para ser servido, mas para servir... E coloca um dique na vaidade de seus seguidores: aquele que quiser ser o maior, seja o que serve. E o mestre lava os pés dos apóstolos. Lava, ajoelhado, os pés do próprio Judas Iscariotes.

Não se pode falar em glória de Deus sem evocar o trabalho. A própria poesia do salmista mostra uma dinâmica no firmamento que lembra a glória divina, isto é, a sua ação movida pelo amor.

Essa é também a glória humana. Uma vida voltada para o outro, em todas as circunstâncias: amem-se uns aos outros, assim como eu os amei - nos diz Jesus. Uma canção cristã nos ensina:
Com Cristo eu descubro que o outro
é sempre um irmão para mim;
com Cristo a vida de amor se faz
de minha vida, o fim.

Aceito, pois, alegremente a missão
de viver para servir:
faço da forma de ser do meu mestre
o caminho que devo seguir.

E o salmista encerra seu poema em estilo de oração: as palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na Tua presença, Senhor, rocha minha e redentor meu.

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