Senhor, até quando?

Também a minha alma está profundamente perturbada; mas tu, SENHOR, até quando? 
Senhor, até quando, www.wewillspeakout.us

Texto do rev. Jonas Rezende.
A marquesa de Sévigné confessou: acho a morte tão terrível, que odeio mais a vida por me conduzir a ela do que pelos espinhos que nela se encontram.

No salmo aberto à nossa consideração, parece-me que Davi se aproxima do pavor que dominava a marquesa de Sévigné. Então, ele suplica a Deus: Salva-me, Senhor, por tua graça, pois na morte não há recordação de Ti; no sepulcro quem Te dará louvor?

Para o teólogo Getúlio Bertelli, a página de Davi exprime a trágica intuição sobre a vida humana, assim como ressalta o poder curador e libertador de Deus. O salmo caracteriza também a situação humana como sendo de contínua ameaça. O próprio ato de existir já encerra em si um perigo para o ser humano. Num plano interior, há a ameaça de grave enfermidade, o que leva o salmista a gemer: eu me sinto, Senhor, muito debilitado; sara-me, porque os meus ossos estão abalados. E, fora dele, Davi pressente a ameaça dos inimigos: envergonhem-se e sejam sobremodo perturbados todos os meus inimigos. Mas como o salmista não chega a especificá-los, possibilita que ampliemos o sentido de inimigos, para incluir os poderes de negação que determinam o sofrimento pessoal e coletivo.

O pano de fundo do salmo é a morte. E Davi descreve com grande realismo o seu pavor e a sua absoluta insegurança diante do sepulcro. É nessa situação de profunda angústia que ele clama por Deus: Senhor, até quando? O salmista sabe o que com frequência esquecemos ou, simplesmente, não queremos ver: a morte que traz a sua sombra perturbadora ao nosso horizonte é fruto da impaciência e da raiva de Deus, para mencionarmos emoções próprias da nossa condição humana, quando o Senhor acompanha os equívocos e os desvios do homem.

Sempre haverá pessoas capazes de perceber essa raiva divina contra o que a Bíblia chama de pecado. Não é, na verdade, furor e ódio dirigidos ao homem, mas aos desvios humanos. Santo Agostinho compreendeu muito bem essa sutileza, para escrever: Deus odeia o pecado, mas ama o pecador. As pessoas que captam o sentimento de desgosto do Eterno, que se afasta e silencia, são as que podem escrever salmos, profetizar. Em uma palavra, são os místicos. E o silêncio divino machuca o corpo e a alma bem mais do que um castigo ou uma punição. É um sofrimento indizível, como o que Davi se confronta: Senhor, até quando?

A Igreja colocou o presente salmo como o primeiro dos chamados salmos penitenciais. São poemas que responsabilizam a ação humana pelo silêncio de Deus.

Dando nomes aos motivos que provocam o afastamento divino, é muito evidente a dúvida do ser humano, a negação do Sagrado, com palavras e atos. E, em particular, a ausência de uma paixão absoluta, um amor infinito por aquele que é o fundamento e o sentido de nosso ser.

Porque então perdemos a verdadeira escala de valores. Invertemos ou negamos prioridades. Esquecemo-nos de que apenas uma coisa é necessária, como Jesus ensina a Marta no Evangelho.
Mas o salmista sabe como restabelecer a comunhão libertadora com o Deus que é amor: salva-me por tua graça, Senhor. Ele sabe o que William Blake também descobriu:

Nenhum pássaro voará alto
se contar apenas com suas próprias asas.

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