É preciso ir para vir I

Então, os levou para Betânia e, erguendo as mãos, os abençoou. Aconteceu que, enquanto os abençoava, ia-se retirando deles, sendo elevado para o céu. Então, eles, adorando-o, voltaram para Jerusalém, tomados de grande júbilo; e estavam sempre no templo, louvando a Deus. Lucas 24.50-53
Jesus ascendendo aos céus, John Copley em 1775
Texto baseado em sermão do rev. Garrison.

Não existe outro adjetivo para esse texto que não seja a descrição de grande paradoxo. E não é uma característica exclusiva desta, mas, na realidade, todas as narrativas que fecham os evangelhos são exatamente isso: narrativas de um grande paradoxo. Em resumo se pode dizer que aquelas pessoas que andavam tristes e cabisbaixas pela crucificação e morte de Jesus, e que receberam com contagiante alegria a notícia da sua ressurreição, se encontravam agora mais alegres ainda com o anúncio da sua partida definitiva. Disso diria a jovem Yasmin: é mole?

Os dias gloriosos dos milagres e curas haviam acabado. Tinham se acabado também os dias convívio íntimo e proveitoso na sua companhia. Só lhes restavam agora as lembranças dos indizíveis momentos em que eles haviam estado com Jesus. Somente na memória eles poderiam resgatar a visão dos paralíticos pulando de alegria, a surpresa dos surdos ouvindo as primeiras palavras, as lágrimas dos olhos cegos que passaram a enxergar.

Outra coisa importante, na solenidade silenciosa dessa reunião, esse pequeno grupo discípulos tinha que compreender e considerar também a dimensão total do ódio humano. Não era nada fácil para eles entenderem o que aconteceu no Getsêmani e no Calvário. O que foi tudo aquilo? Mas, mesmo sem saber a razão, eles sabiam que doravante teriam que enfrentar a vida sem a sua presença física e sem a glória ressurreta de Jesus, e ainda assim voltaram para Jerusalém mais alegres que antes. Como pode ser isso assim?

Parece que eu vivi a minha vida toda me despedindo dos outros, e talvez seja por esse motivo que eu conheça poucas coisas mais tristes do que a separação. A despeito do atual momento, que também é de separação, lembro-me bem da noite solitária em que me despedi do meu pai no HSE. Lembro-me bem também do portão do saguão do aeroporto se fechando e levando embora meu filho e meus netos para outro estado, longe de mim. Como alguém como eu pode entender que aqueles discípulos se despediram de Jesus com alegria?


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